Da Redação
Quando se fala na origem do futebol, a resposta mais conhecida aponta para a Inglaterra, onde as regras do esporte foram oficialmente codificadas em 1863 pela Football Association. Entretanto, quase um século antes desse marco, dois missionários jesuítas deixaram registros surpreendentes sobre um jogo praticado pelos indígenas guaranis nas reduções jesuíticas do Paraguai, que apresenta características notavelmente semelhantes ao futebol.
O primeiro relato foi escrito em 1771 pelo jesuíta espanhol José Cardiel, em sua obra Las Misiones del Paraguay (também conhecida em algumas edições como Breve Relación de las Misiones del Paraguay). Cardiel viveu durante décadas entre os guaranis e descreveu detalhadamente seus costumes.
Ao narrar as atividades realizadas aos domingos, após a missa, o jesuíta observa que os indígenas se reuniam para um jogo de bola que, segundo ele, era praticamente sua única diversão coletiva. O aspecto mais impressionante da descrição está na forma de jogar: diferentemente dos europeus, os participantes não utilizavam as mãos. A bola era lançada ao ar e impulsionada com o peito do pé, sendo devolvida da mesma maneira pelos adversários. Qualquer contato com as mãos era considerado irregular.
Outro detalhe chama a atenção dos pesquisadores: a bola era confeccionada com borracha natural, material conhecido e utilizado pelos povos indígenas da América muito antes de sua popularização na Europa. Cardiel registra ainda que as partidas reuniam numerosos jogadores, atraíam grande público e eram acompanhadas por apostas entre os espectadores.
Mais de vinte anos depois, em 1793, outro jesuíta, José Manuel Peramás, publicou a obra La República de Platón y los Guaraníes. Sem depender do relato de Cardiel, Peramás voltou a mencionar o mesmo jogo praticado pelos guaranis, confirmando o uso exclusivo dos pés, a habilidade dos jogadores e a importância dessa atividade na vida cotidiana das reduções missioneiras.
A existência de duas descrições independentes fortalece o valor histórico desses registros. Para muitos pesquisadores, elas constituem algumas das mais antigas evidências documentais de um jogo coletivo praticado predominantemente com os pés nas Américas.
É importante destacar que esse jogo, conhecido em guarani como Manga Ñembosarái, não era o futebol moderno. Não existem evidências de traves, gols, árbitros, campo, tempo de jogo ou regras padronizadas como as adotadas no século XIX. O futebol contemporâneo continua tendo sua origem formal reconhecida na Inglaterra, onde suas regras foram organizadas e codificadas em 1863.
Mesmo assim, o registro dos jesuítas demonstra que muito antes da criação oficial do futebol já existiam, entre os povos guaranis, jogos coletivos de bola com características surpreendentemente próximas do esporte que hoje mobiliza bilhões de pessoas em todo o mundo.
O tema ganhou novo destaque nas últimas décadas graças aos estudos do antropólogo e jesuíta Bartomeu Melià, considerado uma das maiores autoridades na cultura guarani. Segundo suas pesquisas, o Manga Ñembosarái provavelmente já fazia parte da tradição indígena antes mesmo da chegada dos europeus, tendo sido apenas observado e descrito pelos missionários.
Esses documentos históricos revelam um aspecto pouco conhecido da cultura guarani e ajudam a ampliar a compreensão sobre a diversidade dos jogos de bola desenvolvidos por diferentes civilizações. Embora não alterem a história oficial do futebol moderno, demonstram que a criatividade esportiva dos povos indígenas sul-americanos merece lugar de destaque na história universal do esporte.
Fontes históricas
- Cardiel, José. Las Misiones del Paraguay (Breve Relación de las Misiones del Paraguay), manuscrito de 1771.
- Peramás, José Manuel. La República de Platón y los Guaraníes, 1793.

