Transcrição editada de palestra de Olavo de Carvalho

O nosso assunto tem várias portas de entrada possíveis. Vou aproveitar uma coincidência: hoje um repórter do New York Times me perguntou por que tipos como eu e Bolsonaro somos frequentemente chamados de fascistas. Então vamos entrar pelo lado do fascismo.

A origem do fascismo

Qual é a origem do fascismo? Ele começa por volta de 1910, com uma discussão interna no movimento socialista italiano e com uma cisão desse movimento, baseada na teoria de dois grandes teóricos do fascismo, Enrico Corradini e Alfredo Rocco. Rocco, se bem me lembro, veio depois a ser ministro do governo Mussolini.

Eles tinham uma teoria: o sujeito agente, a força principal da revolução mundial, não podia ser a classe proletária, nem qualquer outra classe social, porque as classes estão condicionadas e circunscritas aos seus países de origem. Não havia, por exemplo, um proletário internacional. “Proletário internacional” é apenas uma maneira de dizer: se o proletário italiano saísse dali e fosse para a Alemanha, não seria proletário na Alemanha, seria mendigo. A condição de proletário é uma condição nacional.

Então eles pensaram: se queremos uma revolução mundial, o sujeito ativo dessa revolução não pode ser a classe proletária nem nenhuma outra classe; somente a nação pode ser o agente da revolução mundial. Daí a ideia de nações revolucionárias: nações proletárias contra nações burguesas, nações exploradas contra nações exploradoras. Esta foi a origem do fascismo.

Se observarem bem, vocês verão que, depois da Segunda Guerra, essa estratégia foi adotada por todo o movimento comunista mundial. O movimento terceiro-mundista criado por Stalin não é nada mais do que isso. Na história do Partido Comunista Brasileiro, por exemplo, a partir da Segunda Guerra, já na época do governo Getúlio Vargas, a estratégia era a aliança entre o proletariado e a burguesia nacional contra o imperialismo: a nação proletária contra a nação capitalista imperialista. Isso foi adotado em todo o mundo, o que equivale a dizer que o movimento comunista internacional, depois da Segunda Guerra, se transformou num movimento fascista internacional. É por isso mesmo que eles xingam seus adversários de fascistas: para ocultar a realidade da sua própria política.

Do fim que justifica os meios à Escola de Frankfurt

Desde o início do movimento comunista, com Karl Marx, todo o mal, toda a violência e a criminalidade intrinsecamente associadas a esse movimento sempre foram justificados em função dos fins a que deveriam servir. O mal serviria ao bem; o fim justifica os meios. A revolução proletária, com todo o sangue que derramou na Rússia e em outros lugares, se justificaria em nome de um futuro de liberdade e prosperidade para o proletariado. Isso jamais se realizou, e foi preciso mudar o discurso. Passou-se da revolução proletária para a revolução das nações exploradas contra as nações exploradoras. Porém, isso também não se realizou. As nações ditas exploradas que se revoltaram contra o imperialismo tiveram, sob o regime socialista e revolucionário, uma sorte muito mais miserável do que a que tinham antes.

Cuba, por exemplo, era a quarta economia da América Latina e agora é a 27ª, algo assim. Sob o pretexto de libertar-se do imperialismo, Cuba se desgraçou a si mesma. Acho muito engraçado quando dizem que a culpa da miséria cubana é o bloqueio, o fato de os Estados Unidos não comerciarem com Cuba. Mas antes da revolução, a desgraça não era justamente o fato de os americanos comerciarem com Cuba? Não sei se o imperialismo atrapalha mais pela presença ou pela ausência: antes reclamavam da presença, agora reclamam da ausência. São pretextos meramente verbais, uma tagarelice sem sentido.

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Entre os anos 50 e 60, porém, as pessoas mais inteligentes do movimento comunista, um grupo de filósofos alemães filiados ao Instituto de Pesquisas Sociais, também chamado Escola de Frankfurt, começaram a perceber que as grandes contradições e conflitos do capitalismo estavam se dissolvendo. O proletariado já não podia ser a grande força revolucionária, porque tinha sido absorvido pelo capitalismo e estava a serviço dele. Sua condição de vida tinha melhorado muito, ele prosperava em toda parte, sentia-se muito bem no capitalismo e não queria fazer revolução nenhuma. As nações exploradas também viviam praticamente da ajuda de seus exploradores, como a própria Cuba, que vivia do dinheiro americano. Todas as contradições tinham acabado. Como destruir o capitalismo se não havia contradições internas nele que pudessem ser exploradas?

Esses filósofos, cujo fundador foi o húngaro Georg Lukács (os outros eram todos alemães, como Max Horkheimer e Theodor Adorno), formularam o problema assim: já que no capitalismo não há mais contradições econômicas a explorar, nem entre nações ricas e pobres, que contradição interna podemos encontrar dentro dos países capitalistas para destruí-los? E criaram o que se chamou de dialética negativa.

A dialética negativa

A dialética negativa consiste em encarar tudo o que existe sob o aspecto negativo, em enxergar o lado do mal, da exploração, da crueldade que existe em todas as relações humanas possíveis, tanto as que abarcam a sociedade inteira quanto as pessoais: entre marido e mulher, pai e filho, professor e aluno e assim por diante. Eles começaram a enxergar o mal em tudo e acreditavam, com razão, que com isso realizavam um programa que Marx havia enunciado mas jamais realizado, e que ele definia como a crítica radical de tudo quanto existe. Note bem: não se trata de criticar a economia capitalista nem os países imperialistas, mas tudo quanto existe. Você critica o casamento, a educação, a amizade, a economia, o trabalho, a lei, a moral. Tudo é ruim, tudo é demoníaco.

Eles se dedicaram a esse trabalho durante quarenta, cinquenta anos. Muitos eram judeus que fugiram da Alemanha, com toda razão, porque seriam mortos lá. Chegaram aos Estados Unidos, receberam os melhores empregos e prêmios, foram paparicados e aplaudidos por todos. E escreveram livros dizendo que a sociedade americana era exatamente a mesma coisa que a sociedade alemã. Vocês são loucos? Não, eles são simplesmente os autores da dialética negativa. Veem tudo pelo lado mau, inclusive as melhores coisas que existem.

O crítico que se põe acima do universo

Quando você se torna o crítico radical de tudo quanto existe, você se coloca acima da realidade existente. Toda a realidade é má, e você é o crítico que a examina, analisa e condena. Automaticamente você está acima da realidade, não apenas da sociedade onde vive, mas do universo inteiro. Mas espere: em que você se transformou? Em Deus? Não. Deus está acima de fato, mas não criou o mundo para criticá-lo, e sim para salvá-lo. Quando você se torna o crítico radical de tudo quanto existe, você se transforma no demônio. E o demônio está livre de todas as obrigações humanas. Só tem direitos, e o direito dele é fazer o mal contra aquilo que é mal. Como tudo é mal, ele pode fazer o mal contra tudo e jamais será condenado nem acusado.

Isso quer dizer que a política esquerdista de hoje exerce sobre o seu público, especialmente o jovem, um atrativo completamente diferente do que tinha antes. Antes, tratava-se de fazer o mal em nome de um bem. Agora não precisa mais do bem: o mal é, em si mesmo, uma superioridade. Quando você adere a essa política, está acima da humanidade. Jamais é submetido a exame. Você é o examinador, o julgador, o carrasco que vai destruir tudo, e jamais será examinado.

Aconteceu um fato singular e muito significativo. Depois de ter jogado milhões de jovens contra seus pais, seus professores, as leis, a moral, contra tudo, o professor Theodor Adorno teve o desprazer de ver os alunos invadirem a sua sala e começarem a quebrar tudo. Aí ele disse: “Espera aí, isso já é dialética negativa demais, isso não pode”. O dialético negativo, o acusador universal, está acima de todas as acusações. Não pode ser acusado, não pode sequer ser analisado. É o tipo invisível que vê tudo: o olho que tudo vê e jamais é visto, para usar um antigo simbolismo esotérico.

É por isso que, se você perguntar ao pessoal da direita quantos livros de direita destruindo a filosofia de Adorno ou a de Lukács eles leram, a resposta é: nenhum. Toda a bibliografia direitista que existe critica o socialismo, o marxismo, vários programas políticos, mas nunca vai à profundidade da filosofia da dialética negativa. Por isso ela sempre sobrevive e pode se refazer depois das piores derrotas. Enquanto a filosofia da Escola de Frankfurt não for totalmente destruída, ela vai se renovar e reconstruir o movimento comunista milhões de vezes. A destruição não é destrutível; ela vive apenas de destruir. Podemos dizer que o pessoal da Escola de Frankfurt descobriu o segredo da vida eterna: basta viver da destruição e jamais propor nada positivo. Quando propõem alguma coisa, propõem, sob o nome de positivo, algo negativo.

Por exemplo: um menino de 5 anos diz que é menina, e você já manda operá-lo, corta o órgão sexual dele, e pronto, virou menina. Pode haver algo de bom nisso? É claro que isso é apenas destruição. Você não sabe o que vai ser desse menino mais tarde, não sabe se ele vai querer o órgão sexual de volta. Mas não precisa saber, porque a destruição é sempre positiva.

Outro exemplo é a legalização universal do aborto. Pense bem: alguém pode provar que um feto é um ser humano ou apenas uma coisa? Existem provas de um lado e de outro, a discussão pode continuar eternamente, ninguém chega a uma conclusão. Isso significa que nenhum de nós sabe a resposta. Se não sabemos, há 50% de chances para um lado e 50% para o outro; portanto, a escolha não é racional. Quem é a favor do aborto não o é por motivos racionais, mas porque quer. Quer o aborto universal porque ele é negativo e, do ponto de vista dele, será sempre positivo. Assim, tudo o que as pessoas consideram mal passa a ser considerado bom, e o bem só existe sob a forma do mal. Esta é a essência, o segredo da Escola de Frankfurt.

Isso tem um atrativo infinitamente maior do que a velha revolução proletária ou a velha revolução fascista, porque ambas alegavam um bem futuro que justificava o mal feito no presente. A finalidade boa justificava o meio mau. Portanto, essas revoluções podiam ser criticadas em nome dos fins que elas mesmas se propunham. Quando se via que no regime socialista os proletários passavam muito mais fome do que no capitalista, via-se que a revolução tinha falhado em realizar o fim a que se propunha e podia-se criticá-la em nome desse fim. Do mesmo modo, a revolução fascista prometia que as nações exploradas e roubadas seriam as dominadoras. Hitler propôs um Reich de mil anos; durou doze e acabou muito mal. Mussolini acabou assassinado e pendurado pelas pernas, e a Itália perdeu tudo.

Mas a nova revolução, a da dialética negativa, não pode ser criticada por nada, porque tem o monopólio da crítica e do discurso destrutivo, e esse monopólio transforma o seu portador num tipo sobre-humano. Ele jamais pode ser condenado em nome de nada, nem mesmo da própria revolução. Os antigos comunistas ainda podiam fazer uma autocrítica: “Erramos em tal ponto”. Agora não há mais erro. O poder atrativo disso é ilimitado.

Pela mesma razão, não adianta discutir contra essa revolução com os argumentos e armas que se usavam contra a revolução proletária e a fascista. As pessoas já não são acessíveis a esse tipo de argumento, porque se sentem sobre-humanas.

Veja o caso de um sujeito que nasceu homem e decidiu virar mulher. Alguns acabam parecendo mulher mesmo, mas a maioria não: continua parecendo homem. Você olha e vê um homem, mas ele diz: “Eu me sinto mulher, e você não tem o direito de me olhar como os seus olhos me veem; tem que me olhar como eu quero ser visto”. Isso quer dizer que a piada de Groucho Marx, “em quem você vai confiar, em mim ou nos seus próprios olhos?”, virou realidade. Você tem que negar o que vê, tem que furar os próprios olhos. Não tem o direito de enxergar as coisas como as enxerga; tem que enxergar como o seu interlocutor quer ser enxergado. Ele se colocou numa posição sobre-humana e não pode mais ser julgado pelos mesmos critérios com que nós somos julgados. Pode nos proibir de falar sem jamais ser acusado de opressor ou de estar fazendo censura.

Impedir você de falar é o quê? Liberdade de imprensa. Em Cuba existe liberdade de imprensa, tanto que todos os jornalistas estão na cadeia: colocá-los na cadeia é liberdade de imprensa. Porque Cuba não pode ser julgada por critérios humanos. Cuba não tem mais uma finalidade positiva a alcançar para justificar a sua revolução. O fracasso se transformou em sucesso, porque quem determina o que é fracasso ou sucesso são eles mesmos. Fidel Castro, quando diziam que o povo cubano passava fome, respondia: “Aqui nós não temos esse consumismo obsceno que vocês têm nos Estados Unidos. Nós comemos apenas o que é necessário. Vocês comem dois bifes todos os dias; nós comemos um bife por ano”. E dizia isso muito orgulhoso. O fracasso se torna sucesso porque o mal se tornou bem.

E existe algum bem humano que seja absoluto? Não. Somos apenas humanos, não somos Deus; o bem absoluto só Deus consegue fazer. Em tudo o que fazemos, dizemos: o bem predomina, mas isso não quer dizer que seja 100%; é 90%, 80%, e nos satisfazemos com isso. Eles, onde houver 10% de mal, dirão que é tudo mal, porque esse pequeno mal está presente em tudo.

Trata-se de um tipo de falácia que se enuncia assim: “tudo é tal coisa”. Por exemplo, “tudo é energia”. Existe algum fenômeno onde a energia esteja ausente? Não, ela está presente em tudo. Ou “tudo é sexo”: existe alguma ação humana que não tenha nenhum elemento sexual? Pelo menos o agente será homem ou mulher, ou uma terceira coisa, então o sexo estará presente. Ou “tudo é a lei da gravidade”: ela jamais estará ausente. Todo fator presente em todos os fenômenos não pode ser causa de nenhum deles. Mas a técnica hoje é pegar o fator que está presente em tudo, dizer que ele é a causa e usar como argumento justamente a onipresença dele. É claro que é uma falácia lógica ridícula, grotesca, mas convence as pessoas.

Doutrinação sem doutrina

Tanto nos Estados Unidos quanto na América Latina, e especialmente no Brasil, esse tipo de filosofia tomou conta de toda a mídia e de todas as universidades. Não sobrou nada fora. No Brasil, o fenômeno se deu porque, a partir dos anos 60, logo após o início da ditadura militar, os comunistas, vendo que tinham sido derrotados e expulsos do campo eleitoral, decidiram usar a estratégia de Antonio Gramsci, a da revolução cultural: fazer primeiro a revolução cultural e depois a política. É preciso tomar a mídia, as editoras, as universidades, lentamente, devagarinho, sem dizer que é propaganda socialista, porque o objetivo de Gramsci, como ele mesmo o definiu, era: “Nós vamos fazer com que todos sejam socialistas sem saber”.

Por isso fui muito contra a campanha que conservadores e liberais faziam contra a doutrinação comunista. Eu dizia: não há doutrinação nenhuma. Eles estão induzindo as pessoas a serem socialistas sem tê-las doutrinado jamais. Usavam-se, em geral, modificações comportamentais que não passavam pela esfera da opinião e das ideias.

Vou dar um exemplo. Houve um professor na Suécia que fez um experimento muito louvado no Brasil pelo diretor de teatro Gerald Thomas. Ele disse aos alunos: “Neste fim de semana vocês vão fazer um experimento de sexo oral com o colega ao lado, e na segunda-feira trazem um relatório científico do que se passou”. Quase todos disseram que foi bom, porque já existem pesquisas em psicologia mostrando que, sempre que você faz uma pessoa agir contra os seus princípios, em 82, 83% dos casos ela muda de princípios para não admitir que fez uma tremenda asneira. Até aquele dia ninguém tinha pensado em fazer isso com o vizinho; a partir de segunda-feira, todos começaram a pensar nisso. Isso é doutrinação? Não. O professor não fez doutrina nenhuma, não os convenceu de nada, apenas sugeriu, inocentemente, que fizessem uma experiência.

É assim que se faz. O livro de Pascal Bernardin, professor de ginásio francês, chamado Maquiavel Pedagogo, mostra o número dessas técnicas de manipulação comportamental. Nenhuma delas parece propaganda de maneira alguma. Há vários truques. Um deles chama-se “pé na porta”. O pesquisador bate na porta do sujeito e diz: “Sou da prefeitura e queremos colar um cartaz de trânsito na sua parede, um cartaz de 2 metros de altura”. O sujeito responde: “Pelo amor de Deus, você vai tampar a minha porta, vai ficar horrível a minha casa”. “Então temos este aqui, pequenininho, de 30 centímetros.” “Pode pregar.” Em 90% dos casos as pessoas concordavam. Você pede uma coisa difícil que ninguém vai dar e depois pede outra, mais fácil, e todo mundo cede imediatamente.

Isso é muito usado nas escolas. Você sugere algo, os alunos dizem não, você respeita a opinião deles e faz uma sugestão um pouco menos chocante, e todo mundo aceita. Essas técnicas são usadas o tempo todo. Quem chama isso de doutrinação não está entendendo nada; acha que há propaganda comunista. Não há propaganda comunista, há apenas o uso intenso desse tipo de truques. A doutrinação passa pela cabeça, pelas opiniões, pelas ideias; quem doutrina está praticamente pedindo um debate, uma discussão. Mas se você sugere experimentos, isso não passa pela esfera das opiniões. Você muda a conduta diretamente, sem passar pela máquina opinante que cada um tem na cabeça. Isso significa o domínio total da mente do aluno.

Mas pessoas muito bem-intencionadas lançaram a campanha Escola sem Partido, falando contra a doutrinação. E o que a esquerda fez? Disse: “Estão querendo nos censurar, estão querendo nos impedir”. A facção que dominava tudo e que baniu completamente a opinião adversária do espaço dominado começou a fingir que estava sendo censurada, perseguida, oprimida. E o pessoal da direita, conservador e liberal, não entendeu o que estava acontecendo: estava combatendo uma coisa que não existia.

O caso do tabagismo

Isso acontece praticamente no mundo inteiro. Vou dar outro exemplo. Ando sempre com o meu cachimbo, não só porque fumo e gosto de fumar, mas porque é um símbolo. O economista Walter Williams, o brilhante economista negro americano que vocês devem conhecer, foi o único a fazer uma análise correta disso. Ele disse que o movimento antitabagista foi o primeiro teste, em escala universal, da possibilidade de manipular a massa e dominá-la.

O que eles fizeram? Lançaram algumas pesquisas científicas dizendo que o fumo causa isto, mais aquilo, mais aquilo outro. E muito bem: qual é o princípio número um da terapêutica? Removida a causa, cessa o efeito. Hoje o número de fumantes nos Estados Unidos diminuiu para um terço, mas as doenças pulmonares e cardíacas não diminuíram nem um único caso. Não importa. O antitabagismo já venceu. Em todo lugar aonde você vai há o cartaz “ambiente smoke free”.

A primeira vez que vi isso foi há uns quinze anos, no Hudson Institute, uma dessas organizações conservadoras americanas, onde fui fazer uma conferência. Quando cheguei, vi o cartazinho, olhei e pensei: vocês já perderam a briga. Porque quando você permite que a autoridade governante policie os seus hábitos pessoais, já perdeu tudo. Depois você quer preservar algumas liberdades políticas, mas não adianta: se você não tem a liberdade pessoal, a liberdade concreta de fazer o que gosta, já entregou tudo. Já está derrotado. E curiosamente o único analista social que percebeu isso foi Walter Williams, num artigo brilhantíssimo que guardei.

É assim que se faz. E o que o tabagismo tem a ver com política? Aparentemente nada; é a coisa mais inocente do mundo. Uma grande parte da opinião pública conservadora, especialmente das religiões católica e protestante, aplaudiu: “Fumar é mesmo obsceno, temos que proibir”, sem perceber o dano que estava causando à liberdade pública. Impuseram a sua opinião tornando-a legalmente obrigatória para todos. Na democracia não se faz isso.

Assim como o tabagismo, muitas outras coisas hoje começam a ser proibidas. Ser homem, ser macho, é obsceno. Todos nós temos que nos conter para não ofender as pessoas ao lado: se você é muito macho, o outro, que não é tanto, se sente ofendido, coitadinho. Ou ser mãe: hoje você pode ver um homem vestido de mulher, seminu, fazendo sexo na rua com outro, mas se uma mulher der de mamar ao seu bebê na rua, ela pode ser presa, porque ser mãe é obsceno. Começou com uma coisa: “Ah, cheira mal, eu não gosto, vamos proibir”. Se você permite que o governo vá proibindo essas coisas, nunca mais para. E nada disso foi feito com discussões políticas. Não houve doutrinação alguma. Leiam Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin, publicado em francês e com tradução brasileira; talvez exista também uma espanhola e uma americana.

Isso significa que a mentalidade da dialética negativa conquista as almas não pela promessa de um bem futuro, mas pela promessa de uma condição sobre-humana imediata: você está livre de todas as obrigações, não pode ser examinado, cobrado ou analisado. Você é o olho que tudo vê e nunca é visto. Toda essa juventude está com essa mentalidade. Viraram demônios. A discussão não é mais política, passou para outro nível.

Por isso você vê fenômenos como o da Argentina: um governo totalmente fracassado é reeleito e obtém sucesso. Por quê? Porque é isso que ele dá às pessoas. Ele as transforma em seres sobre-humanos, libera-as de todas as obrigações humanas e entrega a elas um instrumento de ação com o qual podem oprimir, assustar, maltratar e matar quem quiserem. Isso é muito mais sedutor do que a antiga utopia socialista. A utopia socialista era para o futuro: a presente geração vai se sacrificar, vamos morrer, mas um dia teremos o paraíso socialista. Agora, essa promoção do sujeito à escala sobre-humana é imediata, não é uma utopia. Você começa a vivê-la no primeiro momento.

Pegue um homem com a fisionomia, digamos, de um Schwarzenegger. Ele veste uma calcinha e um sutiã e diz que você é obrigado a vê-lo como mulher. Você responde: “Mas eu não consigo, não vejo uma mulher, vejo um homem”. “Ah, você é um criminoso, você vai para a cadeia.” É isso que eles estão fazendo. E nós estamos aceitando essa brincadeira porque não percebemos a profundidade do impulso diabólico desses homens da Escola de Frankfurt. Como é possível o sujeito sair da Alemanha nazista, onde iriam matá-lo, e vir para um país onde é o contrário, onde tem liberdade, bom emprego, onde todo mundo o trata bem, e dizer que é a mesma coisa? É uma ingratidão absolutamente demoníaca. Ele não percebe a diferença entre a Alemanha nazista e a democracia americana? E não diz isso num artiguinho de jornal; escreveu um livro desse tamanho, A Personalidade Autoritária, onde, segundo ele, está demonstrado que a sociedade americana é igualzinha à sociedade nazista de então. Então por que saiu de lá e veio para cá? Por que não ficou lá mesmo?

Paralaxe cognitiva

Isso é o que chamei de paralaxe cognitiva: um deslocamento total entre o eixo da construção teórica do filósofo e o eixo da sua experiência real. O que ele diz desmente flagrantemente a sua experiência real. E isso é um mal permanente do pensamento ocidental nos últimos quatro ou cinco séculos.

Dou um exemplo: o próprio Karl Marx. Ele diz que todas as classes sociais têm uma visão deformada da história, porque têm interesses em jogo e a sua visão das coisas é deformada pelo interesse oculto, exceto o proletariado. O proletariado não tem interesses especiais; os interesses dele coincidem com os da humanidade inteira. Portanto, o proletariado é a única classe que pode ter uma visão objetiva da realidade histórica. E em seguida Marx, que não só não era proletário, mas nunca tinha visto um proletário, escreve a visão objetiva das coisas segundo a visão proletária. A sua própria existência é o desmentido da sua teoria. Se a visão proletária é a verdade, a sua existência demonstra que um burguês pode ver a realidade tão bem quanto o proletário, e ele acaba dizendo que não pode. É como se dissesse: “Eu, Karl Marx, não consigo escrever este livro”, mas escreveu. Isso não é hipocrisia, nem sequer falsidade; é outro fenômeno, que chamei de paralaxe cognitiva. Se fosse hipocrisia, ele estaria consciente do que está fazendo. Mas escreve isso com total inocência. Não percebe que sua vida é um desmentido da sua obra, que sua experiência real diz o contrário do que ele diz em palavras.

Hoje, é claro, o pessoal da Escola de Frankfurt padece de paralaxe cognitiva, porque a premissa número um da dialética negativa é: eu, o autor da dialética negativa, jamais serei submetido a ela. O autor da análise pejorativa jamais seria objeto de análise pejorativa, porque, se fosse, estaria liquidado na mesma hora.

Max Horkheimer, por exemplo, foi presidente da Escola de Frankfurt durante muito tempo. Era um homem milionário e pagava salário de fome aos empregados da escola; era um capitalista mais explorador do que qualquer capitalista. Não via problema nenhum nisso. Não agia assim por maldade nem por hipocrisia, mas porque era natural nele. Era natural a ideia de que jamais seria objeto da dialética negativa. Do mesmo modo Theodor Adorno e tantos outros.

A influência que essa escola teve na América, e sobretudo no Brasil, é imensurável, porque tem um atrativo hipnótico muito maior do que o do capitalismo ou o do fascismo. Marx, Lênin, Mussolini e Hitler jamais conseguiram angariar tantos adeptos tão facilmente. Os livros de Horkheimer e Adorno são dificílimos de ler. Como ganham tantos adeptos? Porque você não precisa ler. É só aceitar a proposta deles e você já está transfigurado em analista e condenador da humanidade, livre de todas as exigências. Ninguém pode cobrar nada de você. Então temos milhões de idiotas que viraram julgadores da humanidade: sentados numa mesa de juiz, colocam a humanidade no banco dos réus e condenam. E pronto, acabou. E ninguém se lembra de fazer o mesmo com eles.

Por quê? Porque a tradição de análise e discussão dos liberais e conservadores vem do mundo anglo-saxônico, e eles entendem tudo como se fosse uma disputa entre o Partido Conservador e o Partido Trabalhista britânico. Os dois sentavam no parlamento, cada um do seu lado, discutindo educadamente, um fazendo piadinhas sobre o outro, e tudo não passa disso. A política da Escola de Frankfurt não é apenas a destruição do capitalismo, é a destruição de tudo, exceto deles mesmos. É a proposta mais cruel, mais sádica, que alguém já fez. E até hoje ninguém percebeu isso. Por quê? Porque os homens da Escola de Frankfurt jamais pertenceram ao Partido Comunista Soviético. Então todo mundo diz: “Eles são comunistas, mas são mais moderados do que Stalin”. Não: Stalin, comparado a eles, era um doce de coco, um anjinho. Stalin nunca disse que era para destruir tudo o que existia de bom. Eles disseram que por trás de todo o bem existe o mal.

Foucault e a maldade como fundamento

Para dar um exemplo de coisa que eles desejavam destruir: Michel Foucault, que foi discípulo deles e até radicalizou a proposta, era contra as pessoas terem pais. Achava que a pior coisa do mundo era a existência de pais. Dizia: “Para nascer, nós precisamos de um pai? Que coisa mais injusta! Precisamos acabar com isso”. Era contra o capitalismo, o socialismo, a natureza, a história, contra tudo. Só não era contra ele mesmo. Pierre Manent, esse sim um grande filósofo, que foi colega e amigo dele, disse: “Ele sempre foi louco”. E no entanto as pessoas o leem. Claro, Foucault não é nenhuma besta; de vez em quando tem intuições brilhantes sobre isso e aquilo.

Mas a diferença fundamental entre a filosofia antiga e medieval e a filosofia moderna é esta: em geral, os filósofos antigos, como Platão e Aristóteles, têm razão no conjunto e erram um monte de detalhes. Os de hoje são o contrário: erram no conjunto, mas acertam em muitos detalhes. Se você lê as obras de Marx, ele faz análises brilhantes sobre isso e aquilo, mas, quando vai ver o conjunto, não faz sentido nenhum. Foucault é a mesma coisa. Faz, por exemplo, a análise do quadro As Meninas, de Velázquez, e a análise é brilhante, claro, mas o conjunto da sua filosofia não faz sentido e se baseia em quê? Na maldade.

Este é o ponto. Não podemos aceitar essas pessoas como interlocutores genuínos, dizendo: “Sou apenas contra as suas ideias, mas vou preservar a sua pessoa”. Não: as suas ideias até que são boazinhas, é a sua pessoa que não presta.

Eu disse isso muitas vezes. Num debate com João Pedro Stedile, então chefe do movimento dos Sem Terra, na Bienal do Livro de Porto Alegre, em algum ano da década de 2000, a plateia inteira era de membros do MST. Eu disse a eles: “Não sou totalmente contra a sua proposta de reforma agrária; sou contra essa porcaria do seu líder. Esse homem não presta”. Eles ficaram assustadíssimos e começaram a vaiar para eu não poder falar. Peguei o microfone, e todo mundo ficou quietinho, porque conheço a fraqueza dessa gente. Eles são maus para esconder a sua profunda fraqueza. A crueldade deles expressa o medo que têm de existir e de assumir a responsabilidade da existência adulta. Não querem isso. Nunca chegam à maturidade e não querem chegar. Querem continuar brincando de que são os julgadores da humanidade.

Destruir o Foro de São Paulo

Todo o Foro de São Paulo é baseado nisso, e por isso faz sucesso e, por mais derrotas políticas que sofra, vai se refazer. O professor Sanchez tem toda a razão: não podemos ser os antagonistas do Foro de São Paulo, temos que destruí-lo, destruir para que isso nunca mais se levante. Hoje o nazismo é proibido; o comunismo também tem que ser, e o Foro de São Paulo também. Isso não é política, é crime. Se alguém chega e diz que temos que matar todos os judeus, isso é política? Não, isso é crime. Não vamos discutir educadamente: “Devemos matar os judeus, sim ou não?” Você acha que uma discussão dessa tem sentido? Não tem. Cala a boca, burro! Põe na cadeia, tampa a sua boca com uma rolha, isso se não condenar à morte logo. Não podemos mais aceitar a existência dessas coisas. Não podemos aceitar a ideologia criminosa como se fosse uma proposta política. Isso não é proposta política, é psicopatia, é crime.

Esta é a minha conclusão.

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