Economia, segurança e liberdade moldam o novo cenário político regional
Por Eduardo Vasconcellos Lambert
O recente artigo compartilhado por Donald Trump, apontando o Brasil como o próximo grande teste político da América Latina, merece atenção. Não porque as transformações observadas no continente sejam resultado direto da influência direta do presidente americano, mas porque o texto identifica corretamente um fenômeno cada vez mais evidente: a crescente rejeição popular aos projetos políticos da extrema esquerda latino-americana.
Embora a interpretação de que Trump seria o principal responsável pela ascensão de lideranças conservadoras na região simplifique excessivamente um processo muito mais profundo essa tese abriu espaço para uma observação mais ampla do que esta acontecendo na America do Sul. As mudanças que hoje se observam na América Latina nasceram dentro de cada país, impulsionadas pela frustração de milhões de cidadãos diante de programas sociais falidos e promessas que não produziram os resultados anunciados.
Durante décadas, a extrema esquerda latino-americana apresentou-se como defensora da justiça social, da redução das desigualdades e da ampliação da presença do Estado na vida econômica e social. Contudo, em grande parte da região, os resultados ficaram muito aquém das expectativas. Crescimento econômico insuficiente, aumento da dependência estatal, deterioração dos serviços públicos, inflação persistente em alguns países e incapacidade de enfrentar problemas estruturais contribuíram para o desgaste desse modelo político. Alem disso, no cenário brasileiro a corrupção voltou de maneira tenebrosa, trazendo escândalos que envolvem os três poderes e as pessoas que detêm mais poder no pais.(1)
A Argentina talvez represente o exemplo mais emblemático desse processo. Depois de anos de crise econômica, inflação elevada e sucessivos fracassos administrativos, a população optou por uma ruptura histórica ao eleger Javier Milei. O recado das urnas foi claro: uma parcela significativa da sociedade já não acreditava que as mesmas políticas produziriam resultados diferentes.
No Chile, o eleitorado rejeitou propostas constitucionais que representavam uma profunda reformulação institucional inspirada por setores progressistas. Na Bolívia, as disputas internas do movimento socialista revelaram o desgaste de um projeto político que por muitos anos pareceu incontestável. Na Colômbia, a insegurança, as dificuldades econômicas, e o alinhamento ideológico de Gustavo Petro à extrema esquerda, ampliaram o debate sobre os limites das políticas implementadas no seu governo e sua eficácia. Além do mais, o presidente eleito, Abelardo de la Espriella, anunciou que seu governo adotará uma política de enfrentamento direto aos grupos armados envolvidos no narcotráfico
Embora cada país possua circunstâncias próprias, existe um elemento comum ligando essas experiências: a crescente percepção de que o Estado expandiu suas promessas mais rapidamente do que sua capacidade de cumpri-las.

Mas a economia não é o único fator por trás dessa mudança.
A segurança pública tornou-se uma preocupação central em praticamente toda a América Latina. O avanço do narcotráfico, do crime organizado e da violência urbana passou a influenciar diretamente o comportamento eleitoral das populações. Em muitos países, o eleitorado começou a exigir respostas mais firmes do poder público e a demonstrar crescente insatisfação com abordagens consideradas excessivamente complacentes ou ineficazes.
No Brasil, essa questão adquiriu relevância especial. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho deixaram de ser organizações restritas ao ambiente prisional para se tornarem estruturas criminosas de alcance nacional e internacional, com influência sobre rotas de tráfico, lavagem de dinheiro, crimes transnacionais e crescente ocupação de territórios.
Nesse contexto, muitos brasileiros observaram com preocupação a resistência do governo federal em adotar medidas defendidas por setores da oposição, incluindo o reconhecimento dessas facções como organizações terroristas. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos sob Donald Trump passaram a defender uma postura mais agressiva contra organizações criminosas transnacionais, ampliando mecanismos de combate e cooperação internacional. Para uma parcela crescente do eleitorado conservador, essa diferença de abordagem simboliza duas visões distintas sobre o papel do Estado diante do crime organizado.
O Brasil também ocupa posição singular por outro motivo: tornou-se o centro de um intenso debate internacional sobre liberdade de expressão, equilíbrio entre os Poderes e limites da atuação judicial em disputas políticas.
As decisões tomadas nos últimos anos por tribunais superiores dividiram profundamente a opinião pública. Seus defensores argumentam que elas foram necessárias para proteger as instituições democráticas. Seus críticos sustentam que tais medidas ultrapassaram limites constitucionais e contribuíram para restringir o debate político, enfraquecer garantias fundamentais e ampliar a interferência judicial na vida pública.
Em 2022, a ministra Carmem Lúcia proferiu voto no qual ela afirma literalmente que o Tribunal estava fazendo censura, embora fosse temporária e necessária. Os excessos do judiciário alcançaram pessoas como Daniel Silveira, deputado em exercício do mandato e com imunidade parlamentar, condenado por crime de opinião. Do mesmo modo, jornalistas como Osvaldo Eustáquio e Allan dos Santos, perseguidos por fazer criticas ao modus operandi do sistema, condenados, mas que tiveram seus pedidos de extradição negados por Espanha e Estados Unidos, respectivamente.
Independentemente da posição adotada, é impossível ignorar que essas controvérsias atraíram atenção internacional. O Brasil passou a ser observado com interesse crescente por governos estrangeiros, analistas políticos e movimentos ideológicos de diferentes orientações.
É nesse contexto que deve ser compreendido o interesse de Donald Trump pela política brasileira. Sua amizade e relação política com Jair Bolsonaro e suas críticas frequentes ao governo Lula refletem afinidades e divergências ideológicas conhecidas. Recentemente, Trump classificou Lula como uma pessoa “muito volátil” e afirmou não ter qualquer interesse particular em sua figura política. Mais importante do que a troca de críticas, porém, é o significado simbólico desse embate.
Trump tornou-se uma referência para movimentos conservadores em todo o Ocidente não porque tenha criado a reação contra a esquerda, mas porque expressa politicamente um sentimento que já existia. A insatisfação popular que impulsionou mudanças eleitorais na Argentina, no Chile, na Bolívia, na Colômbia e em outros países não veio de Washington. Ela nasceu da realidade enfrentada diariamente por milhões de cidadãos que rejeitam os governos da extrema esquerda.
Portanto, a chamada virada conservadora latino-americana é consequência de um ciclo histórico em que parcelas crescentes da população passaram a questionar modelos políticos que, em sua avaliação, falharam em entregar prosperidade, segurança e confiança institucional.
Por isso, a eleição brasileira possui importância decisiva. O que estará em julgamento não será apenas um governo ou uma liderança específica. Estará em julgamento a continuidade de um modelo político que dominou grande parte da América Latina nas últimas décadas e falhou.
Se o Brasil acompanhar a tendência observada em outros países da região, a maior nação latino-americana poderá consolidar uma nova configuração política continental. Se seguir outro caminho, poderá representar um freio a essa transformação.
Em qualquer cenário, uma conclusão já parece evidente: a mudança em curso na América Latina é resultado da crescente disposição dos eleitores em revisar as escolhas políticas do passado e buscar alternativas para os desafios do presente que tenham maior identificação com seu ideário politico conservador e liberal.

