Por Eduardo Vasconcellos Lambert


Após a Segunda Guerra Mundial, a Europa enfrentou uma escassez de mão de obra devido à destruição causada pelo conflito e ao envelhecimento populacional. Muitos países europeus buscaram trabalhadores estrangeiros para reconstruir suas economias, incluindo um número significativo de migrantes muçulmanos provenientes de antigas colônias europeias no Norte da África, como Marrocos, Argélia e Tunísia, bem como da Turquia e do Paquistão.

A principal motivação econômica para essa migração estava ligada à necessidade urgente de reconstrução. Países como França, Alemanha, Reino Unido e Países Baixos firmaram acordos bilaterais com suas ex-colônias para recrutar trabalhadores temporários, oferecendo emprego e estabilidade financeira em troca de serviços essenciais à recuperação industrial e urbana.

Além da motivação econômica, muitos migrantes buscavam melhorar suas condições de vida e escapar da pobreza extrema e da falta de oportunidades em seus países de origem. A esperança de acesso a melhores serviços públicos, educação e perspectivas profissionais também impulsionou a migração em massa.

Em alguns casos, conflitos armados e instabilidade política foram fatores decisivos. Durante a guerra de independência da Argélia, por exemplo, muitos muçulmanos migraram para a França em busca de segurança e proteção contra a violência, inaugurando uma primeira onda de migração forçada.

Contudo, com o tempo, surgiram tensões entre comunidades muçulmanas e sociedades europeias, impulsionadas por múltiplos fatores. Um deles foi a dificuldade de integração cultural, incluindo barreiras linguísticas, diferenças de costumes e valores sociais. Esses desafios afetaram a educação, a participação cívica e a adaptação aos padrões culturais europeus.

Outro fator importante foi a discriminação e a xenofobia. Muitos imigrantes e seus descendentes enfrentaram marginalização, o que resultou em desigualdade de oportunidades no mercado de trabalho, educação e habitação. Em palavras de Giorgia Meloni, “a Europa precisa preservar sua coesão e garantir que a imigração respeite nossos valores e tradições”.

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A radicalização, embora minoritária, também contribuiu para tensões. Alguns grupos foram atraídos por ideologias extremistas, exacerbando conflitos sociais e provocando alarmes de segurança pública. Nigel Paul Farage destacou em seu discurso no Parlamento Europeu que “quando a integração falha e a alienação cresce, surgem os riscos de extremismo e fragmentação social”.

Os conflitos se tornaram inevitáveis pois a população muçulmana cresceu muito e passou a exigir direitos de cidadãos europeus. Além disso, ataques e assassinatos foram cometidos em resposta a publicações humorísticas. O caso da revista Charlie Hebdo, há 10 anos, é o mais notório, e sinalizou o início de uma onda de conspirações militantes islâmicas em toda a França que causaram centenas de mortes em 2015.

Os agressores, que ainda não foram julgados, alegaram que o complô era uma retaliação à decisão da revista de publicar caricaturas satirizando o profeta Maomé, a figura mais reverenciada do islamismo. Eles também se identificaram como membros do grupo terrorista Al Qaeda na Península Arábica. E a Al Qaeda assumiu a responsabilidade pelo ataque.

Outro caso emblemático foi o assassinato de Samuel Paty, em 2020, um professor francês que foi decapitado por um jovem extremista islâmico após exibir caricaturas de Maomé. O atentado gerou um grande movimento emotivo de indignação e protesto em França e também no estrangeiro. Numerosas manifestações de tom popular foram organizadas em memória do professor assassinado, sendo que uma homenagem nacional foi programada para o dia 21 de outubro de 2020.

Este atentado de Conflans acontece pouco tempo depois do discurso do presidente Emmanuel Macron, sobre a luta contra os “separatismos”, dado em 2020, na cidade de Mureaux, exatamente na mesma região onde teve lugar este atentado. Durante o discurso, o presidente fez referências às medidas necessárias para reforçar o laicismo e fez referência a um “islão em crise”.

O ataque é a décima decapitação com motivação terrorista islâmica na Europa desde o atentado de Saint-Quentin-Fallavier (também na França), em 2015. É também o quinto atentado terrorista islâmico na França desde o início de 2020.

O ambiente de guerrilha psicológica que existe em muitas escolas francesas há muito que vinha sendo denunciado das mais diversas formas. Em 2008, o filme de Jean-Paul Lilienfeld, O Dia da Saia, mostrou uma professora de Francês, levada ao limite pela violência e hostilidade dos alunos e seus pais, com destaque para os muçulmanos que lhe censuram o uso de saia na sala de aula.

Isso demonstra como a população muçulmana tem assumido uma postura de hostilidade aos costumes e à cultura ocidental. Alguns grupos revelam que parte da estratégia de ocupação começa com o reagrupamento familiar do imigrante, seu assentamento e posterior crescimento demográfico, no qual a legislação permissiva lhe garante estrutura social e religiosa, como mesquitas, escolas, associações culturais.

Porém, após o período de integração surge a fase de afirmação identitária, quando passam a reivindicar o direito de viver publicamente a própria fé (vestimenta, feriados, alimentação halal, espaço de oração etc.). E essas demandas são propostas como “exigência de respeito”, e sociologicamente representam um processo de cidadania plena — querer que sua identidade cultural e religiosa tenha lugar legítimo na sociedade. O que fica evidente é que os muçulmanos não querem apenas serem respeitados, e assumem postura crítica e belicosa em relação aos costumes cristãos ocidentais provocando tensão contínua.

É verdade que os conflitos não tem somente tinta religiosa. Nas comunidades muçulmanas o desemprego juvenil é alto, o acesso à educação superior é limitado, há discriminação no mercado de trabalho e o índice de criminalidade é maior. Nos subúrbios de Paris, por exemplo, onde ocorrem protestos recorrentes desde os anos 1980, os jovens dizem não estar “lutando contra o Estado francês por religião”, mas sim reagindo à marginalização e à falta de perspectiva. Uma situação complicada posto que a taxa de natalidade nessas comunidades são exponencialmente maiores que as dos franceses natos.

A resposta a essa tensão surge em pontos diferentes. Na Suécia e na Dinamarca foram queimados exemplares do Alcorão, em 2023, mostrando que a tolerância tem diminuído. Não obstante, a mídia esquerdista da maior visibilidade a esse tipo de incidente provocando uma falsa equivalência moral, que é enganosa. Por exemplo, há enorme comoção pelo revide de Israel aos ataques covardes feitos pelo Hamas em Gaza e, muitas vezes, os relatos midiáticos misturam escalas de violência, quando um massacre ou sequestro em Gaza é comparado com uma queima simbólica de livro na Europa.

Queimar um livro sagrado é ofensivo e desrespeitoso, mas não é um crime contra pessoas. O verdadeiro crime de guerra é o que o Hamas faz em Gaza, e isso é universalmente condenado pelo direito internacional.

A distinção entre atos terroristas e manifestações simbólicas é essencial. Ataques como os realizados por grupos extremistas violam o direito internacional humanitário e tratados de Genebra, enquanto a queima de textos sagrados, embora profundamente ofensiva, enquadra-se sob a proteção de liberdade de expressão garantida pela legislação do Parlamento Europeu e tratados internacionais de direitos humanos.

O Parlamento Europeu tem reiterado que todos os cidadãos têm direito à liberdade religiosa (Direitos Humanos, Artigo 9 da Convenção Europeia) e à liberdade de expressão (Artigo 10), destacando que atos simbólicos podem ser condenáveis moralmente, mas não equivalem a crimes contra a vida.

A Europa possui uma identidade cultural profundamente moldada por tradições cristãs, que influenciaram suas instituições, normas sociais e valores éticos. Historiadores como David Starkey e sociólogos como Peter Berger ressaltam que essa herança molda a coesão e o senso de pertencimento coletivo.

O avanço representado pela Carta dos Direitos Humanos de 1948 fortaleceu o compromisso europeu com igualdade, liberdade e dignidade, estabelecendo bases para convivência multicultural, mas sempre dentro de um quadro de respeito às tradições históricas.

A presença de comunidades muçulmanas traz novos desafios de integração. Mas, como destacou recentemente Giorgia Meloni, “a fé cristã, a pátria e a família são os pilares que sustentam nossa civilização; qualquer pessoa que deseje viver na Europa deve respeitar esses valores e não tentar impor culturas que entrem em conflito com eles”. Ou procurar outro lugar para viver!

 

 

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