Como novas diretrizes médicas estão transformando pessoas saudáveis em pacientes crônicos
Por Eduardo Vasconcellos Lambert
Nos últimos anos, uma seqüência de revisões silenciosas nas diretrizes médicas redefiniu o que significa estar “saudável”. E, curiosamente, todas caminham na mesma direção: os limites diagnósticos estão sendo reduzidos, criando uma nova legião de pessoas classificadas como “doentes”, “em risco” ou “insuficientemente controladas”.
Da pressão arterial ao colesterol; da glicemia à função renal; da inflamação ao cálcio coronariano — o efeito se repete. O que ontem era variação normal, hoje se transforma em risco. E o que era risco, hoje se transforma em indicação de tratamento farmacológico.
A pergunta é inevitável: isso é ciência… ou estratégia?
Pressão arterial: quando a caneta cria doenças
A redefinição do limiar de hipertensão, que caiu de 140/90 para 130/80 em algumas diretrizes internacionais, gerou milhões de novos “hipertensos” instantaneamente. Críticos de renome — como o médico e pesquisador John Abramson, de Harvard — alertam que grande parte desses indivíduos não tem benefício clínico sólido ao iniciar terapia agressiva, mas passam a ser tratados como doentes crônicos.
Ele observou que essa simples mudança criou mais de 31 milhões de novos hipertensos da noite para o dia. Para ele, grande parte dessas pessoas não tem qualquer benefício clínico comprovado ao se medicar mais agressivamente, mas passam a ser tratadas como doentes crônicos.
Dr. David Newman, comentarista renomado de medicina baseada em evidências, apontou que a meta de 120 mmHg defendida pelo estudo SPRINT não reflete a realidade do consultório, já que o método de aferição da pesquisa reduzia artificialmente os valores — o que, segundo ele, empurra milhões para medicação desnecessária.
Dr. James DiNicolantonio reforça que metas universais desconsideram variações fisiológicas importantes, especialmente em idosos, onde baixar demais a pressão aumenta risco de quedas, síncopes e mortalidade. Como resumem grupos como Choosing Wisely: “não trate números; trate pessoas”.
Colesterol: metas que encolhem, receitas que crescem
O colesterol talvez seja o caso mais emblemático. As metas de LDL caíram repetidamente ao longo das últimas décadas, chegando hoje a níveis que muitos pacientes jamais alcançariam sem múltiplos medicamentos simultâneos.
Valores-alvo de LDL foram sendo reduzidos década após década: de 160 a 40 mg/dL (dependendo da categoria de risco). A nova diretriz brasileira de dislipidemia estabeleceu metas de < 55 mg/dL para muito alto risco e < 40 mg/dL para risco extremo. Na prática, isso significa que uma única estatina raramente basta.
Para nomes como Rita Redberg, editora do JAMA Internal Medicine, esse movimento não é sustentado por benefícios reais para pessoas de baixo ou moderado risco. A escalada terapêutica — estatinas, ezetimiba, PCSK9, novas moléculas — beneficia poucos e medicaliza muitos.
Dr. David Brown, da Washington University, lembra que muitos tratamentos preventivos assumem benefícios não comprovados quando aplicados em populações amplas.
No Brasil, vozes como a do Dr. Barakat criticam abertamente essa tendência, lembrando que o foco exclusivo no LDL produz uma “indústria da prevenção” em que o marcador torna-se o fim, e não o meio.
Glicemia: a fabricação global da pré-diabetes
Se a redefinição da hipertensão criou milhões de novos pacientes, a da pré-diabetes criou centenas de milhões. A categoria “pré-diabetes” é hoje tão ampla que inclui quase metade das pessoas acima de 40 anos em certos países.
O especialista John Yudkin, da University College London, autor do clássico paper “The medicalisation of a non-disease”, alerta há anos que a expansão da categoria “pré-diabetes” transformou uma condição de risco modesto em um rótulo médico global, que hoje classifica mais de 1 bilhão de adultos no mundo.
Segundo Yudkin, essa mudança produz exatamente o que parece: um gigantesco reservatório de futuros consumidores de medicamentos hipoglicemiantes, muitos dos quais jamais progrediriam para diabetes de fato.
Dr. Victor Montori, da Mayo Clinic — uma das vozes mais ativas contra a “medicina industrializada” — afirma que a fixação em metas cada vez mais baixas de HbA1c empurra pacientes para “tratamentos intensos com benefícios marginais e efeitos adversos desnecessários”.
Função renal, inflamação e cálcio coronário: a nova fronteira da expansão diagnóstica
A pressão não para por aí. Metas mais estritas para albuminúria classificam milhões como portadores de doença renal leve — muitos dos quais jamais desenvolveriam problemas reais, mas acabam medicados para “corrigir” um marcador extremamente sensível.
O médico Richard Lehman, da Universidade de Birmingham, analisando bases populacionais, conclui que a maioria das pessoas rotuladas como tendo “Doença Renal Crônica estágio 1 ou 2” jamais desenvolverá doença renal verdadeira.
Mesmo assim, elas são frequentemente colocadas em uso máximo de bloqueadores do sistema renina-angiotensina.
O nefrologista Dr. Allen Salmasi chama isso de “albuminúria-centrismo”, afirmando que reduções mínimas em um marcador extremamente sensível estão justificando titulação agressiva de medicação em pessoas com baixo risco real.
O mesmo ocorre com os testes de inflamação e com o uso crescente do escore de cálcio coronariano. Especialistas como Harlan Krumholz, de Yale, alertam para o risco claro: exames cada vez mais sensíveis significam tratamentos cada vez mais agressivos para alterações que, muitas vezes, não têm impacto clínico comprovado.
O próprio criador da PCR-us, Dr. Paul Ridker, já afirmou que o teste “não deve ser usado como gatilho para medicalização indiscriminada”, dada sua extrema sensibilidade.
O padrão é claro — e alarmante
Quando observamos cada diretriz isoladamente, o movimento parece técnico.
Quando observamos todas juntas, percebemos que o movimento é político, econômico e estrutural.
Nenhuma diretriz amplia o normal.
Nenhuma reduz a zona de preocupação.
Nenhuma afrouxa a recomendação farmacológica.
Todas descem a régua.
Todas aumentam o contingente de pessoas rotuladas como “pacientes”.
Todas ampliam o mercado das terapias crônicas.
E isso acontece simultaneamente em:
- pressão arterial
- LDL e ApoB
- glicemia e HbA1c
- albuminúria e TFGe
- cálcio coronariano
- inflamação sistêmica (PCR-us)
- risco global cardiovascular
Nunca antes na história da medicina tantos milhões de pessoas foram classificadas como “em risco”, “pré-doentes”, “subótimas”, “insuficientemente controladas”.
Milhões de indivíduos saudáveis passam a viver sob vigilância médica contínua — não porque suas condições mudaram, mas porque os parâmetros mudaram.
A denúncia necessária
Não se trata de negar avanços científicos.
Não se trata de demonizar medicamentos que salvam vidas.
Trata-se de denunciar um padrão evidente, repetitivo e estatisticamente impossível de ser aleatório:
os limites diagnósticos estão sendo redefinidos para baixo, e essas redefinições criam massas de novos pacientes que passam a ser candidatos a tratamento farmacológico agressivo.
É um fenômeno global, progressivo e lucrativo — mas raramente questionado.
O resultado social é previsível:
- Mais pessoas rotuladas como doentes.
- Mais receita para a indústria farmacêutica.
- Mais polifarmácia.
- Mais custo para o paciente.
- Mais dependência de terapias crônicas.
Ou, nas palavras de Dr. Abramson, uma medicina “onde a linha entre prevenção e medicalização excessiva ficou perigosamente tênue”.
Enquanto a medicina deveria centrar-se em pessoas, parece cada vez mais centrada em números. E quando os números mudam, quem paga são os pacientes: com dinheiro, com efeitos colaterais e com a transformação de sua própria identidade — de cidadãos saudáveis para dependentes permanentes de tratamento.
A ciência deveria curar doenças.
Não criá-las.

