Por Eduardo Vasconcellos Lambert


A França, historicamente identificada como católica e hoje marcada pela secularização, assiste a um avivamento evangélico que começa a remodelar sua paisagem espiritual. Nos últimos cinco anos, o número de igrejas evangélicas cresceu de forma consistente, atraindo fiéis de diferentes origens e ocupando parte do espaço deixado pelo declínio do catolicismo. Dados do Conselho Nacional de Cristãos Evangélicos da França (CNEF) indicam que, entre 2017 e 2022, o país passou de 2.521 para cerca de 2.700 locais de culto evangélico — um aumento de 7,1 %. Hoje, são aproximadamente 750 mil praticantes regulares, o que representa cerca de 1,1 % da população francesa.

O fenômeno chama atenção em um país onde o catolicismo, outrora quase hegemônico, encolheu para 29 % de identificação populacional, segundo o INSEE (Instituto Nacional de Estatística) em 2020, enquanto “outros cristãos” já somavam 9 %.

“Em 2017 havia uma igreja evangélica para cada 29 mil habitantes. Em 2022, essa relação caiu para uma a cada 25 mil”, afirmou o CNEF em nota oficial, destacando a rapidez da implantação de novas comunidades.

Contudo, alguns especialistas pedem cautela com o entusiasmo das estatísticas. Artigos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique argumentam que os números do CNEF podem inflar a percepção de “explosão evangélica”, já que cada novo local de culto não necessariamente representa uma grande comunidade.

“O crescimento é real, mas não uniforme. Ele se concentra em igrejas pentecostais de imigrantes. É preciso evitar narrativas triunfalistas”, afirma o cientista político Jérôme Fourquet.

Todavia, pesquisadores como o sociólogo Sébastien Fath apontam que boa parte desse avanço está ligada à força das correntes pentecostais e carismáticas, especialmente entre imigrantes africanos e latino-americanos. Essas igrejas oferecem cultos vibrantes, música contemporânea e forte apoio comunitário — elementos que atraem tanto novos convertidos quanto jovens desiludidos com a tradição católica.

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Outro motor do crescimento são as conversões. Estima-se que uma parte dos novos fiéis venha de famílias católicas não praticantes, mas também há registros de convertidos de origem muçulmana, um dado sensível no contexto francês.

“O catolicismo perdeu espaço por conta da secularização e da queda da prática entre os jovens. O vácuo aberto está sendo ocupado por comunidades evangélicas mais dinâmicas”, explica Fath.

O aumento da presença evangélica não passou despercebido na arena pública. O CNEF busca atuar como interlocutor institucional junto ao parlamento francês e defende direitos de liberdade religiosa e maior reconhecimento público.

Uma fala com forte peso simbólico foi proferida pelo ex-presidente Étienne Lhermenault, que descreveu três desafios que a CNEF e os evangélicos devem enfrentar nos próximos anos. Primeiro, “uma pregação fiel à Cruz, que nos pede para responder ao desafio da formação e da vocação”. Segundo, evangelismo compassivo “que evita a dupla armadilha da graça barata e do legalismo mortal”. E, finalmente, o “desafio de uma presença na cidade que favoreça uma voz profética em vez da ilusão de uma sociedade cristã”.

Analistas, no entanto, avaliam que o peso político dos evangélicos ainda é limitado em números absolutos, mas pode se tornar relevante em debates sobre bioética, família e educação. Críticos também alertam para o risco de “instrumentalização eleitoral” do voto evangélico, a exemplo do que ocorreu em outros países.

Em resposta, outras vozes lembram que a laïcité francesa — embora firme — não apaga a religiosidade da população. Como defendeu o historiador da secularidade Jean Baubérot:

“Sem um secularismo flexível, as tensões na França seriam maiores.”

O próprio presidente Emmanuel Macron reforçou esse ponto em discurso oficial:

“Tenho o dever de permitir que todos pratiquem sua religião com dignidade… a laïcité não deve promover uma religião republicana, mas respeitar consciências.”

Esse posicionamento sustenta que, ainda que o governo seja secular, a fé dos cidadãos — inclusive evangélicos — é expressão legítima da diversidade religiosa da sociedade francesa, e não mero instrumento eleitoral.

O tema das conversões de origem muçulmana gera sensibilidade. Líderes islâmicos já expressaram desconforto com campanhas de evangelização direcionadas, interpretadas como provocação em bairros de forte presença muçulmana. Paralelamente, evangélicos denunciam atos hostis e vandalismos contra alguns de seus templos.

Esse cenário se soma à polarização nacional em torno do islamismo político e das políticas de integração, criando tensões entre comunidades religiosas minoritárias.

Apesar das controvérsias, muitos veem no avanço evangélico uma retomada da tradição cristã em um país cada vez mais secularizado. Igrejas locais oferecem aulas de francês para imigrantes, distribuição de alimentos e apoio psicológico em áreas carentes.

Além disso, intelectuais lembram que o cristianismo, em suas diversas expressões, foi pilar para os direitos humanos e a dignidade da pessoa no Ocidente.

“Independentemente da confissão, a mensagem cristã reafirma valores fundamentais como solidariedade, liberdade e respeito à vida. O crescimento evangélico, nesse sentido, pode ser lido como parte de uma renovação espiritual da França”, avalia Fath.

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