Por Eduardo Vasconcellos Lambert
Entre a Omissão Democrática e a Cumplicidade Ideológica
O Brasil sempre cultivou uma diplomacia respeitada, marcada por pragmatismo, moderação e compromisso com a legalidade internacional. Governos de diferentes espectros ideológicos — inclusive os anteriores à CF de 1988 e do próprio presidente Lula — mantiveram um princípio basilar: a política externa brasileira é guiada por interesses estratégicos e comerciais, não por alinhamentos ideológicos automáticos.
Infelizmente, o que se vê hoje é o contrário. A atual política externa — conduzida por um Itamaraty ideologicamente capturado — rompe com essa tradição e alinha o Brasil, sem consulta popular, aos regimes mais perigosos do mundo contemporâneo: Irã, Rússia e China. Todos autoritários, todos hostis às liberdades individuais, todos inimigos abertos do Ocidente democrático.
Em sua nota mais recente, o Itamaraty afirma que “qualquer ataque armado a instalações nucleares representa flagrante transgressão da Carta das Nações Unidas e de normas da Agência Internacional de Energia Atômica”. Aparentemente técnica, essa declaração ignora o contexto geopolítico atual e a ameaça real que o Irã representa — tanto para Israel quanto para o Ocidente em geral.
Enquanto o Irã financia e arma grupos terroristas como Hamas, Hezbollah e Houthis; ameaça diretamente Israel e o Ocidente com retaliações e guerras por procuração; e avança em seu programa nuclear com fins militares, o Brasil responde com silêncio conivente — ou pior, com notas condenando os Estados Unidos ou Israel, que reagem a ataques diretos ou à ameaça de destruição iminente. Ao condenar a autodefesa de Israel com mais veemência do que os massacres cometidos pelo Hamas, o Itamaraty abandona o equilíbrio diplomático e assume uma retórica perigosa, descolada da realidade e das responsabilidades de um Estado soberano.
Tão grave e ainda insano é o papel da grande imprensa brasileira, que tem alimentado uma percepção distorcida do conflito. Veículos como Globo, Folha, CNN Brasil, entre outros, tendem a cobrir o conflito com foco quase exclusivo nas consequências humanitárias em Gaza, omitindo ou relativizando o uso sistemático de escudos humanos pelo Hamas; os túneis militares sob hospitais e escolas; a recusa do Hamas em reconhecer o direito de Israel à existência; e a coação violenta da população palestina sob seu domínio.
Essa cobertura enviesada tende a moldar uma opinião pública baseada em emoção, e não em informação. Ao explorar imagens de sofrimento sem apresentar o contexto estratégico e histórico, a imprensa contribui para normalizar a narrativa de que Israel é o agressor — quando na verdade reage a décadas de ameaças existenciais.
A omissão do jornalismo investigativo e a ausência de pluralidade de vozes favorecem a consolidação de uma política externa que não representa os valores nem a vontade da maioria da população brasileira.
O editorialismo militante se tornou tão absurdo que, recentemente, uma comentarista da Globo, Eliane Catanhêde, chegou a relativizar os ataques iranianos dizendo que “Israel só sofre uma mortezinha aqui e ali”, enquanto o Irã “não mata ninguém”. A banalização da violência chega, nesse ponto, a ser desumana.
Por outro lado, pesquisas recentes mostram com clareza que mais de 70% dos brasileiros reconhecem o Hamas como organização terrorista. Além disso, cerca de 84% defendem que o Brasil deveria se alinhar a Israel — ou, no mínimo, manter uma neutralidade verdadeira e não ideológica, enquanto apenas uma minoria, barulhenta mas irrelevante em termos democráticos, sustenta simpatia por Hamas ou pelo Irã.
Mesmo assim, o governo Lula insiste em sustentar um alinhamento ideológico perigoso e unilateral, que já ultrapassou a esfera diplomática e se tornou uma escolha política irresponsável: associar o Brasil a regimes autoritários e hostis ao Ocidente, sob o pretexto de “multipolaridade”.
Essa política externa não tem respaldo popular. Nem tradição. Nem legitimidade. O Brasil sempre se destacou por sua habilidade em dialogar com todos, sem se tornar cúmplice de ninguém. Em 1947, sob a liderança do brasileiro Oswaldo Aranha, a ONU aprovou a criação do Estado de Israel. Foi um momento histórico de protagonismo e equilíbrio.
Mesmo durante os governos petistas anteriores, o relacionamento com China, Irã ou Rússia era econômico e comercial, não político ou estratégico. Hoje, a diplomacia brasileira caiu do muro, assumiu um lado — e é o lado errado da história.
O que está em jogo não é uma divergência de abordagem. É a credibilidade de um país que, historicamente, foi visto como um mediador confiável — e agora se arrisca a ser percebido como parceiro de regimes que violam sistematicamente os direitos humanos.
O Brasil não pode, em nome de afinidades ideológicas anacrônicas, comprometer sua imagem, sua neutralidade histórica e sua autoridade moral. O Itamaraty não pertence a um partido — pertence à nação. E o que se vê hoje é uma ruptura preocupante entre as posições diplomáticas oficiais e os valores democráticos que a sociedade brasileira majoritariamente sustenta.
A imprensa, por sua vez, tem o dever de informar, não de induzir. E o silêncio cúmplice da grande mídia diante desse alinhamento perigoso é, também, uma forma de traição à verdade.
A diplomacia brasileira precisa urgentemente voltar a representar o Brasil — e não um projeto ideológico sem respaldo popular, nem legitimidade histórica.

