Por Eduardo Vasconcellos Lambert
A Europa atravessa uma das mais profundas transformações políticas e culturais desde o fim da Guerra Fria. O debate que antes orbitava majoritariamente em torno de economia, integração europeia e Estado de bem-estar social passou a incorporar, de maneira cada vez mais central, temas como identidade nacional, imigração, integração cultural, segurança pública e soberania.
Nos últimos vinte anos, o continente recebeu milhões de imigrantes vindos do Oriente Médio, Norte da África, Ásia Central e África Subsaariana. Em muitos países, a imigração foi inicialmente tratada pelas elites políticas e acadêmicas como uma necessidade econômica e um imperativo humanitário. Contudo, os desafios decorrentes desse processo passaram a ocupar o centro do debate público europeu.
Entre esses desafios que abrigam tensões religiosas como pano de fundo, podemos elencar as dificuldades de integração cultural; o crescimento de bairros segregados; o aumento da percepção de insegurança; e o crescimento de movimentos identitários tanto entre imigrantes quanto entre europeus nativos, tudo fruto da radicalização islâmica em setores minoritários.
Por isso, é importante distinguir, desde o início, a maioria dos imigrantes muçulmanos — que vive pacificamente, trabalha e busca integração — de grupos radicais que defendem valores incompatíveis com as democracias liberais europeias. O problema político europeu atual não reside simplesmente na presença de muçulmanos, mas na dificuldade de integração de parcelas da população migrante e na incapacidade de alguns Estados europeus em impor regras culturais e jurídicas comuns.
Casos de violência urbana, ataques terroristas jihadistas ocorridos desde os anos 2000, denúncias de assédio sexual em espaços públicos e manifestações defendendo a implementação de aspectos da sharia em países europeus contribuíram para uma crescente sensação de ruptura cultural em parte da população europeia.
Em resposta a esse cenário, surgiu uma nova direita conservadora europeia, com características próprias em cada país, mas unida por alguns pontos em comum, tendo como base a valorização da identidade nacional e a defesa de fronteiras mais rígidas, tais como a crítica ao multiculturalismo irrestrito; a exigência de integração cultural; e a resistência à centralização política da União Europeia.
Entre os casos mais emblemáticos desse movimento estão Reino Unido, Itália e Hungria.
Reino Unido: o conservadorismo como pressão de oposição
O Reino Unido talvez tenha sido o primeiro grande laboratório político dessa transformação. O Brexit, aprovado em 2016, não foi apenas uma decisão econômica ou diplomática. Representou também uma reação cultural.
Milhões de britânicos passaram a enxergar a imigração em massa, especialmente após a ampliação da União Europeia e a crise migratória de 2015, como um fator de pressão sobre os salários, a qualidade dos serviços públicos e a oferta habitacional. Além disso, isso tudo afeta diretamente a identidade cultural inglesa.
Nesse contexto, figuras como Nigel Farage tornaram-se símbolos de uma política soberanista e anti-establishment. Mais recentemente, manifestações em Londres contra imigração e em defesa da identidade britânica mostram que parte significativa da sociedade continua acreditando que o Brexit não resolveu completamente a questão migratória.
Ao mesmo tempo, o Reino Unido enfrenta uma contradição interna importante: Londres tornou-se uma das cidades mais multiculturais do mundo, enquanto parcelas expressivas do interior inglês passaram a rejeitar o modelo multicultural adotado nas últimas décadas. Nesse cenário, movimentos mais radicais de rua coexistem com uma direita institucional que tenta transformar o descontentamento popular em força eleitoral.
Por isso, a manifestação 16/5 em Londres — ligada ao movimento “Unite the Kingdom”, associado ao ativista Tommy Robinson e focada em críticas à imigração e ao governo trabalhista — ganha repercussão elevada. Londres vive uma divisão política diferente do resto da Inglaterra. Então um protesto grande em Londres chama atenção justamente porque ocorre no centro político, financeiro e midiático do país.
Apesar de Tommy Robinson ser considerado controverso, ele tem influência digital e capacidade de mobilização de rua, promovendo atos como estes que juntou mais de 100 mil pessoas, segundo os organizadores, que podem empurrar o debate público mais para temas de identidade nacional, islamismo radical, segurança e imigração,
Itália: o conservadorismo institucionalizado
A Itália representa uma etapa diferente do fenômeno europeu.
Com Giorgia Meloni, o conservadorismo identitário chegou ao governo sem romper completamente com as instituições europeias. Meloni conseguiu combinar o discurso duro sobre imigração com o compromisso institucional com União Europeia e OTAN. Ela fez isso defendendo as raízes cristãs da Europa e reacendendo o patriotismo italiano. O diferencial italiano está justamente nessa combinação entre discurso identitário e pragmatismo governamental.
Meloni insiste que a Itália possui uma herança histórica e cultural que deve ser respeitada por quem deseja viver no país. Sua visão não parte da rejeição absoluta à imigração, mas da ideia de que integração cultural é indispensável para preservar a coesão nacional. A premiê defende fervorosamente a identidade italiana e os valores cristãos. Ela já afirmou que a Itália deve preservar suas tradições e que símbolos como o crucifixo são fundamentais para a herança cultural do país.
Ela declarou enfaticamente que a Itália não se tornará “o campo de refugiados da Europa”. Ela defende que a responsabilidade pelas fronteiras marítimas deve ser assumida por toda a União Europeia. Como parte de sua política de contenção, o governo italiano buscou cooperação internacional, como a transferência de requerentes de refúgio para centros na Albânia.
Apesar de ter aprovado a entrada de trabalhadores imigrantes para tentar suprir o severo déficit demográfico italiano, Meloni tem uma visão restritiva sobre a concessão de direitos civis a estrangeiros. Ela argumenta que a cidadania italiana não é um direito automático, mas sim “um prêmio” que deve ser concedido apenas àqueles que possuem vínculos autênticos e profundos com a nação. Por isso, ela rejeita a ideia de que a imigração seja a solução sustentável para a crise demográfica europeia, defendendo políticas internas de apoio às famílias e natalidade.
Essa posição ganhou força em uma Europa onde muitos cidadãos passaram a perceber o multiculturalismo não como enriquecimento automático, mas como um desafio complexo que exige limites, regras e assimilação cultural.
Hungria: soberania e reação ao globalismo europeu
A Hungria tornou-se símbolo da resistência soberanista dentro da União Europeia.
Sob Viktor Orbán, o país adotou uma postura frontalmente crítica às políticas migratórias de Bruxelas. Durante a crise migratória de 2015, a Hungria construiu barreiras físicas em suas fronteiras e recusou quotas obrigatórias de refugiados propostas pela União Europeia. Orbán transformou o discurso de defesa da identidade cristã europeia em política de Estado.
Ao contrário de países como França e Alemanha, a Hungria experimentou níveis muito menores de imigração muçulmana em larga escala. Isso permitiu ao governo apresentar sua política migratória como um modelo preventivo. Contudo, ao mesmo tempo, o país entrou em conflito constante com instituições europeias devido a disputas envolvendo à soberania nacional, à independência judicial, à liberdade de imprensa, além de criticas por causa da centralização de poder.
Mais recentemente, o crescimento político de Péter Magyar sugere que parte da sociedade húngara deseja reformas institucionais sem abandonar completamente o eixo conservador e soberanista consolidado durante a era Orbán.
Portugal: a transformação silenciosa da Península Ibérica
Portugal também passou a integrar o mapa da nova tensão política europeia, embora de forma menos explosiva que França, Alemanha ou Reino Unido.
Durante muitos anos, o país foi visto como relativamente imune às grandes ondas de polarização migratória observadas no restante da Europa Ocidental. Contudo, mudanças demográficas aceleradas, aumento da imigração e pressão sobre habitação e serviços públicos alteraram rapidamente o debate político português.
Nos últimos anos, Portugal registrou crescimento expressivo da população estrangeira, especialmente vindas de brasileiros, asiáticos e africanos. Ao mesmo tempo, cresceram preocupações relacionadas a pressão imobiliária em Lisboa, o aumento do custo de vida nas principais cidades, sobrecarga em serviços públicos, a exploração de mão de obra migrante e as dificuldades de integração em algumas regiões urbanas, como na Marroquinaria, na capital Lisboa.
Esse cenário favoreceu a ascensão do partido Chega e de seu líder André Ventura, que construiu um discurso centrado no combate à imigração ilegal – dentro desse aspecto, trava especialmente combate com o islamismo radical, sugerindo o endurecimento de penas aplicadas a cidadãos nessa situação. A base de sua plataforma é a crítica ao sistema político tradicional e a defesa da identidade portuguesa.
Embora Portugal ainda mantenha índices de violência inferiores aos de vários países europeus, o crescimento do Chega mostra que o país começou a participar do mesmo movimento político observado em outras partes da Europa, e que alinham pautas como a rejeição parcial ao multiculturalismo irrestrito e a demanda por maior controle migratório.
O caso português é particularmente relevante porque demonstra que mesmo países historicamente considerados moderados e consensuais começam a experimentar tensões semelhantes às observadas em outras sociedades europeias.
França e Alemanha: países presos às próprias feridas históricas
Enquanto Reino Unido, Itália e Hungria avançam em direção a modelos mais assertivos de controle migratório e afirmação identitária, França e Alemanha enfrentam obstáculos históricos particulares.
A Alemanha carrega o trauma permanente do nazismo. Isso torna qualquer discurso nacionalista extremamente sensível. Mesmo debates legítimos sobre imigração frequentemente são tratados sob forte vigilância política e institucional.
Ainda assim, o crescimento do partido Alternative for Germany (AfD) mostra que parte significativa da população alemã passou a questionar as consequências da imigração em massa e da crise migratória iniciada em 2015.
Na França, a situação é ainda mais delicada.
O país vive há décadas tensões ligadas à integração de grandes comunidades imigrantes, especialmente em periferias urbanas. Ataques terroristas islâmicos, conflitos culturais e episódios recorrentes de violência urbana alimentaram o crescimento político de Marine Le Pen e do nacionalismo francês.
Contudo, tanto França quanto Alemanha permanecem parcialmente limitadas por suas memórias históricas cheias de culpa colonial, pelo trauma do fascismo, por receio de movimentos nacionalistas, e até por dependência de consensos europeus pós-guerra. Isso dificulta respostas mais firmes no campo migratório, mesmo diante do crescimento da insatisfação popular.
O desafio europeu: convivência multicultural ou fragmentação social?
O desafio europeu talvez possa ser resumido em uma pergunta central: como preservar os valores fundamentais da democracia liberal — como os direitos individuais, a liberdade religiosa e a pluralidade cultural — sem que isso resulte em fragmentação social, radicalização religiosa ou enfraquecimento da identidade nacional? Essa tensão atravessa grande parte do debate político contemporâneo no continente e revela um dilema para o qual ainda não existe resposta simples.
Negar as dificuldades de integração enfrentadas por diversos países europeus parece cada vez menos sustentável. Em algumas regiões, surgem conflitos ligados à segregação urbana, ao aumento de discursos extremistas e à dificuldade de assimilação de grupos culturalmente muito distintos. Ao mesmo tempo, reduzir toda imigração a uma ameaça civilizacional também alimenta medo, xenofobia e polarização política, produzindo injustiças e aprofundando divisões sociais.
Diante desse cenário, a Europa se vê obrigada a buscar um equilíbrio delicado. De um lado, permanece o compromisso humanitário de acolher pessoas em situação de vulnerabilidade e manter sociedades abertas e democráticas. De outro, cresce a necessidade de preservar a coesão cultural, garantir segurança pública e construir mecanismos reais de integração social e econômica. Esse equilíbrio também depende da capacidade dos Estados de sustentar financeiramente políticas públicas eficientes, evitando que tensões econômicas ampliem ressentimentos sociais.
Mais do que escolher entre abertura ou fechamento, o desafio europeu parece ser encontrar formas de convivência que permitam diversidade sem dissolução do vínculo coletivo que sustenta a própria ideia de nação democrática.
Possíveis caminhos para reduzir tensões sociais
Diante do quadro exposto acima, cresce entre setores conservadores e soberanistas a defesa de políticas migratórias mais graduais e condicionadas à capacidade real de assimilação cultural e econômica de cada país. A ideia central não é eliminar a imigração, mas impedir transformações abruptas que comprometam a estabilidade social, ampliem enclaves culturais paralelos ou produzam sensação permanente de deslocamento entre as populações nativas. Isso pode ser ajustado mantendo a população jovem nativa sempre em numero superior a população de imigrantes.
Outro ponto que ganha força no debate europeu é a exigência de integração cultural mais clara e objetiva. Para muitos governos e movimentos conservadores, a imigração somente pode funcionar de maneira sustentável quando há aceitação explícita das normas civis e dos valores fundamentais das sociedades receptoras. Isso inclui respeito às leis nacionais, igualdade entre homens e mulheres, liberdade religiosa, aprendizado da língua local e reconhecimento das instituições democráticas.
A visão defendida por líderes como Giorgia Meloni parte do princípio de que a Europa não pode abrir mão de sua herança histórica e cultural em nome de um multiculturalismo ilimitado. Nesse entendimento, quem escolhe viver em um país europeu deve adaptar-se à cultura política e jurídica do país anfitrião, e não exigir que o Estado europeu se reorganize segundo normas religiosas ou culturais incompatíveis com os princípios democráticos liberais.
A questão do extremismo islâmico também permanece no centro das preocupações de segurança europeias. Embora uma parcela dos muçulmanos europeus viva pacificamente, grupos radicais continuam defendendo modelos político-religiosos incompatíveis com as democracias ocidentais, incluindo propostas de implementação da sharia ou rejeição explícita das instituições civis europeias.
Nesse contexto, diversos setores políticos defendem que qualquer movimento que pregue violência religiosa, imposição coercitiva de normas religiosas ou rejeição das leis nacionais seja tratado com o máximo rigor dentro do Estado de direito. O objetivo seria diferenciar claramente liberdade religiosa legítima de militância extremista organizada.
O desafio europeu, portanto, não está apenas em controlar fronteiras, mas em reconstruir um modelo de integração capaz de preservar segurança, identidade cultural, estabilidade democrática e coexistência civil.
Desse modo, a Europa entrou em uma nova era política.
Questões antes consideradas periféricas — identidade, soberania, imigração e integração cultural — tornaram-se centrais. Reino Unido, Itália e Hungria representam três modelos distintos dessa transformação, destacando oposição soberanista, conservadorismo institucionalizado e a renovação interna do nacional-conservadorismo. Mas esses paises nao estao sozinhos: Polônia, Suécia e Holanda ja acenderam o sinal de alerta.
França e Alemanha, por sua vez, continuam divididas entre a pressão popular por maior controle migratório e os limites históricos impostos por seus próprios traumas nacionais.
O futuro europeu dependerá da capacidade de equilibrar liberdade, segurança, identidade cultural, direitos individuais e integração social. Ignorar os conflitos culturais reais tende a aprofundar polarizações.
O desafio europeu do século XXI talvez seja exatamente este: encontrar um modelo de convivência capaz de preservar a civilização liberal europeia acomodando devidamente as tensões produzidas por mudanças demográficas e culturais aceleradas dentro do tecido da sua própria identidade milenar.

