Por Joseph Nicolosi, PhD


Influenciados pela suposição popular de que a homossexualidade de forma alguma pode ser modificada, a maioria dos psicoterapeutas hoje procede para produzir uma “cura” incentivando o cliente a aceitar sua homossexualidade. O tratamento mais eficaz é considerado a dessensibilização em relação aos sentimentos de culpa. Isso não ocorre porque a maioria dos terapeutas defenda o estilo de vida gay, mas porque não vê nenhum tratamento bem-sucedido.

O psicólogo comportamental Joseph Wolpe (1969) foi confrontado com um cliente religioso que se sentia culpado por sua homossexualidade. Wolpe teve de decidir qual comportamento extinguir — a homossexualidade ou a culpa religiosa. Em vez disso, ao invés de tentar mudar a homossexualidade, ele escolheu amenizar a culpa[1]. Este caso ilustra tanto o poder do terapeuta quanto a forma como esse poder é usado com freqüência dentro da profissão psicológica. Hoje, a psicologia afirma trabalhar a partir de uma filosofia “livre de valores”. No entanto, decisões como esta — eliminar a culpa religiosa — são, na verdade, tomadas com base em outros valores hierárquicos das escolhas do terapeuta.

Leahey, citado por De Angelis (1988), descreve como a psicologia foi inicialmente entendida como a aplicação prática da filosofia. Essa filosofia se baseava em princípios morais e religiosos, enfatizando a natureza espiritual do homem. No final do século XIX, a nova tendência científica e racionalista surgiu em oposição a essa tradição. A psicologia procurou romper seus vínculos com essa filosofia e tornar-se uma ciência objetiva, empírica e livre de valores da natureza humana. Como diz Leahey, o mito era que finalmente se havia encontrado uma psicologia filosoficamente neutra.

Na década de 1960, o movimento humanista então influenciou essa psicologia, dando-lhe uma nova, embora disfarçada, versão de autoridade moral. Essa nova orientação tinha como critério os sentimentos para avaliar a moralidade (De Angelis, 1988). Esse movimento popular das décadas de 60 e 70 se opunha à tradição psicológica e pregava abertura emocional, espontaneidade e lealdade a si mesmo. O crescimento já não era mais visto como produto da inteligência e da resolução de problemas, mas era considerado exclusivamente em termos emocionais. “Sentir-se bem consigo mesmo” tornou-se o teste decisivo do bom comportamento, uma espécie de “…senso moral deturpado” (De Angelis, p. 5). Essa psicologia humanista rejeitou grande parte do racionalismo da tradição psicanalítica. Introduziu, em vez disso, o sentimento de aceitação plena da pessoa, como ela é, sem expectativas. Seguindo a influência da filosofia centrada no cliente de Carl Rogers, esperava-se que os terapeutas permanecessem neutros e não diretivos, e que não contaminassem a terapia com qualquer tipo de sistema de valores.

Na realidade, porém, o tratamento eficaz ocorre a partir de um sistema de valores compartilhado entre cliente e terapeuta. Nem a psicologia nem qualquer outra ciência social pode abordar a questão do “que é” a partir de alguma perspectiva “livre de valores” sobre “o que deveria ser”. Por causa de seu envolvimento cotidiano no drama humano, o profissional de saúde mental está particularmente envolvido com questões filosóficas. Ele deve ajudar as pessoas que estão lutando por respostas, e essas respostas não devem ser encontradas apenas em dados comportamentais. Tampouco surgirão em uma interação cliente-terapeuta neutra e não diretiva. Em vez disso, elas se desenvolvem por meio da interação ativa entre cliente e terapeuta dentro do contexto de suas perspectivas compartilhadas sobre a condição homossexual. De fato, é degradante não oferecer tratamento àqueles que escolhem livremente buscar mudança em relação à homossexualidade.

HISTÓRIA DO TRATAMENTO DA HOMOSSEXUALIDADE

Editora Sal Cultural - Coleção Grandes Temas da Teologia

Na literatura psicanalítica, a homossexualidade masculina tem sido, há muito tempo, entendida como um reflexo de um déficit de identidade de gênero. Recentemente, esse déficit de gênero também foi demonstrado empiricamente. No entanto, nenhum tratamento consistentemente bem-sucedido resultou dessa compreensão. Isso pode se dever ao fato de que a psicanálise tradicional cometeu o erro de enfatizar a superação de um suposto “medo de homens”. Em vez disso, a ênfase deveria ter sido em abordar problemas relacionados aos homens — isto é, resolver um apego defensivo (Mobley, 1983).

O trabalho inicial de Stekel (1930) relata vários casos de cura completa, incluindo um em detalhe, por meio da psicanálise freudiana. O trabalho de Rubenstein (1956) oferece algumas percepções valiosas sobre indicadores prognósticos. Ao revisar seus dez anos de tratamento psicanalítico da homossexualidade, Rubenstein alerta contra o extremo otimismo, mas relata que “um número razoável de pacientes pode ser ajudado até certo ponto; alguns podem melhorar bem além das expectativas iniciais” (p. 18).

Seguindo a tradição reparativa, Anna Freud (1949, 1952) refere-se a vários casos que mostram “bons resultados”, incluindo quatro casos que levaram a um ajustamento heterossexual. Também a partir da perspectiva reparativa, Ovesey (1969) relata três casos de sucesso após um acompanhamento mínimo de cinco anos.

Relatando sobre o programa intensivo de psicoterapia de curto prazo de Masters e Johnson, Schwartz e Masters (1984) descrevem resultados encorajadores, com uma taxa de falha de apenas 28,4% após cinco anos. Mayerson e Lief (1965) também relatam resultados bem-sucedidos em um estudo detalhado: eles encontraram 47% de seus pacientes como heterossexuais funcionais após um acompanhamento médio de quatro anos e meio.

Bieber (1962) afirma uma taxa de cura de 27% para seus pacientes. Ellis (1956) relata que 18 de seus 28 pacientes homossexuais tiveram melhora “distinta” ou “considerável” na conquista de relações afetivo-sexuais satisfatórias com mulheres.

Wallace (1969) descreve o tratamento bem-sucedido de um caso de homossexualidade por meio de uma psicanálise relativamente breve, assim como Eidelberg (1956). Da mesma forma, Poe (1952) detalha um caso bem-sucedido de um homossexual passivo com base em uma adaptação da visão de tratamento. Utilizando um formato de terapia em grupo, Birk (1974) também afirma melhora significativa em vários casos.

Em um estudo com trinta estudantes universitários homossexuais, Whitener e Nickell (1964) relatam melhora considerável entre pacientes que eram altamente motivados, tinham estruturas de caráter relativamente saudáveis e não vinham praticando comportamento homossexual há um longo período. Dos quinze estudantes universitários, Ross e Mendelsohn (1959) relatam que onze apresentaram de leve a considerável melhora. Monroe e Enelow (1960) descrevem mudança significativa em quatro de sete pacientes.

Em uma análise muito detalhada dos resultados terapêuticos, van Aardweg (1986) dividiu 101 clientes homossexuais em quatro categorias: Mudança Radical, Mudança Satisfatória, Sem melhora e Sem Mudança. Entre aqueles que continuaram mais de vários meses em tratamento, 65% alcançaram resultados nas categorias de Mudança Radical ou Mudança Satisfatória.

Wolpe (1969) relata uma reversão espontânea da homossexualidade em um cliente após ele ter deixado o tratamento. Pattison e Pattison (1980) descrevem onze homens que superaram a homossexualidade por meio de conversão baseada na espiritualidade. Casos como esses indicam que a mudança pode ocorrer fora do âmbito da psicoterapia.

Dentro da psicoterapia, uma ampla variedade de abordagens de tratamento tem sido utilizada, com resultados que variam de promissores a claramente desanimadores. Não foi até a contribuição de Mobley com o conceito de apego defensivo que as bases foram estabelecidas para um tratamento que seguia um modelo causal. Moberly identificou o apego defensivo como o principal bloqueio para a cura, isolando-o como uma resistência básica no tratamento.

Alguns outros erros básicos se destacam nas estratégias iniciais de tratamento psicanalítico. O terapeuta classicamente treinado era emocionalmente distante. Reter o envolvimento pessoal apenas frustra o cliente homossexual, que particularmente necessita de conexão masculina íntima e cuja cura ocorre principalmente por meio da relação terapêutica. O terapeuta emocionalmente distante reativa histórias anteriores de frustração com o pai frio e crítico. Para corrigir esse erro, Moberly explica que o terapeuta deve ser mais emocionalmente envolvido e, dentro dos limites terapêuticos, intensamente dependente. O terapeuta deve ser do mesmo sexo que o cliente, para permitir que ele trabalhe os bloqueios de desenvolvimento dentro desse vínculo com alguém do mesmo sexo. Na terapia reparativa, a relação terapêutica é o fator central no tratamento. Não é apenas o relacionamento com o terapeuta principal que importa, mas também com os membros de um grupo de terapia composto por pessoas com o mesmo tipo de dificuldade. Relações mútuas, de confiança e íntimas com homens irão favorecer o processo terapêutico. Sempre há uma identidade masculina subjacente — neste caso, uma heterossexualidade latente — sobre a qual se constrói a mudança no cliente que a busca. O modelo de desenvolvimento natural é utilizado, o que conceitua o progresso rumo à intimidade como sendo com um parceiro do sexo oposto.

Na terapia reparativa, o cliente examina particularmente de perto sua identidade de gênero e seu senso de masculinidade. O sucesso do tratamento baseia-se na escolha do cliente de crescer em direção a uma identidade masculina. Ele passará a confiar que possui toda a masculinidade de que precisa e, portanto, não tem mais necessidade de olhar para fora de si mesmo em direção a outros machos. Ele se compromete com o tratamento com a crença de que “independentemente de como me sinto, sou um heterossexual latente.”

O tratamento oferece uma maneira particular de interpretar a história pessoal e de compreender os eventos da primeira infância e as relações com os pais, especialmente com o pai. Ele tenta diminuir os impulsos homoeróticos por meio de apoio e educação sobre as motivações subjacentes. O objetivo é obter uma conscientização das questões e uma clareza de direção, o que eventualmente trará uma transformação do significado do que o homem sente. Como Moberly (1983) explica: “Os sentimentos homoeróticos devem ser reinterpretados como surgindo da necessidade legítima de intimidade entre pessoas do mesmo sexo.” Mas apenas através da intimidade não erótica ocorrerá a ligação masculina e se formará a identidade masculina. Um cliente relata:

Ouvi muitas teorias em minha busca por compreensão, mas nenhuma pareceu tão verdadeira para a minha experiência de vida quanto esta. Devo dizer que isso atinge o âmago da homossexualidade. Por causa dessa compreensão de mim mesmo, melhorei em autoestima, confiança, maturidade e masculinidade. Isso também reafirmou a bondade do meu ser. Caminho como um homem ferido, mas curando-me… mas cheio de esperança hoje e para o futuro.

O tratamento promove o objetivo do cliente de superar pensamentos, sentimentos e comportamentos homoeróticos. A direção de alguns homens pode ser familiar com esposa e filhos; a de outros, um compromisso com um estilo de vida celibatário. A maioria dos clientes concentra-se primeiro em superar a preocupação homossexual, relações dependentes e insatisfatórias, e baixa autoestima baseadas na incompletude da sua identidade de gênero.

População de Tratamento

Este tratamento é adequado para a maioria dos clientes homossexuais na minha prática. Alguns outros são inadequados para a terapia reparativa porque não apresentam sinais de déficit de identidade de gênero e não correspondem ao nosso modelo de desenvolvimento. Ainda outros clientes homossexuais estão satisfeitos com a sua orientação e não têm desejo de tratamento.

“CURA” VERSUS “MUDANÇA”

Em seu trabalho final, “Análise Terminável e Interminável”, Freud concluiu que a análise é essencialmente um processo ao longo da vida. Isso é verdade no tratamento da homossexualidade, que — como muitas outras questões terapêuticas, tais como o alcoolismo ou problemas de autoestima — exige um processo contínuo de crescimento. No entanto, embora não existam atalhos para o crescimento pessoal, o tempo necessário para alcançar um objetivo não é tão importante quanto a escolha da direção. Um sentimento de progresso em direção a um valor assumido é o que é importante. O homem não gay está no caminho para unificar a sua sexualidade com a sua identidade masculina. O fato de ele poder olhar para trás, para os meses anteriores, e ver a realização de alguns dos objetivos com os quais se comprometeu — é isso que dá esperança.

Alguns leitores podem decidir que esta abordagem é reacionária e anti-homossexual, antissexual, antiliberdade. Pelo contrário, para aqueles homens que procuram uma alternativa ao estilo de vida gay, este é um tratamento progressivo. Ele reconhece o significado da diferença de gênero, o valor da família e dos valores convencionais, e a importância da prevenção da confusão de gênero em crianças.

Muitos homens descobriram que essas idéias ressoam uma verdade dentro de si mesmos, vendo-as como úteis para superar a preocupação com o mesmo sexo que tem perturbado suas vidas.


[1] Duas observações interessantes sobre este caso: primeiro, Wolpe tomou sua decisão com base na crença de que a homossexualidade era biologicamente determinada. Segundo, o cliente posteriormente descobriu atração heterossexual por conta própria após treinamento de assertividade e se casou. Wolpe considerou que ele havia sido curado da homossexualidade.


* Este e o Capitulo 3 do livro “Reparative Therapy of Male Homosexuality: A New Clinical Approach” [Terapia Reparativa da Homossexualidade Masculina, Uma Nova Abordagem Clínica]

Tradução: Eduardo Vasconcellos Lambert

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *