Nova nota doutrinal do Vaticano busca redefinir títulos marianos, mas não resolve a distância entre tradição e Escritura.
Por Eduardo Vasconcellos Lambert
Nesta terça-feira, 4 de novembro de 2025, o Dicastério para a Doutrina da Fé do Vaticano publicou a nota doutrinal Mater populi fidelis (“Mãe do Povo Fiel”). O documento, assinado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández e por monsenhor Armando Matteo, procura esclarecer os títulos atribuídos à Virgem Maria — em especial “Mãe espiritual”, “Medianeira de todas as graças” e “Corredentora”.
O texto reafirma de modo explícito que Maria não é corredentora, pois “a mediação salvífica é de Cristo”. O documento reconhece que “nenhuma pessoa humana, nem sequer a Santíssima Virgem, pode agir como dispensadora universal da graça”. Essa é uma reafirmação importante da centralidade de Jesus como único mediador e salvador.
Contudo, o mesmo texto mantém abertos outros títulos atribuídos a Maria, como “Mãe espiritual” e “Mãe do povo fiel”. É aqui que o problema permanece.
A questão da “mãe do povo fiel”
O título Mater populi fidelis, que dá nome ao documento, parte da ideia de que Maria exerce uma maternidade espiritual sobre os cristãos. No entanto, não há fundamento bíblico para esse conceito. Em nenhum lugar das Escrituras Maria é chamada de “mãe dos fiéis” ou “mãe espiritual” da Igreja.
A fé cristã ensina que a filiação espiritual não vem de Maria, mas diretamente de Deus Pai, pela fé em Cristo:
“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (João 1:11–13)
Aqui, o texto é inequívoco: o novo nascimento — a filiação espiritual — não é mediada por criatura alguma, nem mesmo por Maria. É um ato direto de Deus, mediante a fé em Cristo.
O apóstolo Paulo reforça essa realidade quando declara que recebemos “o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: ‘Abba, Pai!’” (Rm 8:15).
O cristão não chama Maria de mãe espiritual, mas chama Deus de Pai.
E Cristo é descrito como o “Primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8:29) — ou seja, o modelo e a fonte dessa filiação, não por linhagem humana, mas por adoção espiritual.
Entre devoção e Escritura
A importância de Maria como serva fiel e bem-aventurada entre as mulheres é incontestável. Contudo, a devoção não pode ultrapassar os limites da revelação.
O Novo Testamento não atribui à Virgem funções maternas universais nem papéis mediadores no plano da salvação. A Escritura aponta constantemente para Cristo como o centro exclusivo da fé e da intercessão:
“Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, homem.” (1Tm 2:5)
A insistência em títulos como “Mãe do povo fiel” ou “Medianeira de todas as graças” — ainda que suavizados — mantém uma tensão teológica irresoluta entre a devoção mariana e a fidelidade ao testemunho bíblico.
Uma tentativa de conciliação
O Vaticano, ao rejeitar o termo “corredentora”, tenta corrigir um desvio histórico. No entanto, ao preservar a linguagem de maternidade espiritual e mediação de graças, ainda que “em sentido limitado”, o documento deixa brechas que a Escritura não autoriza.
Trata-se de uma tentativa de conciliação entre tradição e Bíblia que, em última análise, não dissolve a contradição. Porque, se a salvação e a filiação espiritual vêm unicamente do Pai por meio do Filho, não há espaço teológico para uma maternidade espiritual paralela.
O “elefante” continua no recinto
O Mater populi fidelis acerta ao reafirmar a supremacia de Cristo, mas não enfrenta plenamente o que está em questão: a ausência de base bíblica para qualquer mediação ou maternidade espiritual atribuída a Maria.
O documento nomeia o problema — reconhece a necessidade de cuidado doutrinal —, mas evita o passo seguinte: submeter a tradição à plena autoridade da Escritura.
Assim, o “elefante na sala” continua lá: a distância entre o que a Bíblia ensina e o que a teologia mariana ainda tenta sustentar.
A fé cristã, em sua essência, permanece ancorada em uma verdade inabalável: “Cristo é tudo em todos” (Cl 3,11). Ele é o único Salvador, o único Mediador e o único capaz de interceder diante do Pai. Maria, serva fiel e bendita entre as mulheres, tem seu lugar de honra — mas não de mediação.
Reconhecer isso não diminui Maria; apenas exalta aquele que é digno de todo louvor: Jesus Cristo, Senhor e Deus.
O autor é pesquisador de teologia bíblica e escreve regularmente para O Farol sobre fé cristã, doutrina e sociedade.

