Por Eduardo Vasconcellos Lambert
A morte de Charlie Kirk, covardemente assassinado durante um evento universitário em Utah, em setembro de 2025, não pode ser tratada apenas como um episódio isolado de violência política. Trata-se de um sintoma visível de um processo cultural mais profundo: a demonização sistemática de vozes conservadoras e cristãs no Ocidente contemporâneo. Kirk, de apenas 31 anos, deixou duas filhas pequenas e uma obra política marcada pela serenidade com que defendia suas convicções, pela centralidade da fé cristã em seu discurso e pela capacidade de mobilizar milhares de jovens em torno de valores que a modernidade apressada insiste em descartar.
Enquanto a mídia apressou-se em classificá-lo como “extremista”, aqueles que acompanharam suas conferências e entrevistas testemunharam um homem que falava com calma, fundamentava suas posições em argumentos morais e bíblicos, e se dispunha a responder ao contraditório com firmeza, mas sem rancor. O rótulo de extremismo, nesse caso, revela mais sobre os padrões ideológicos de quem o aplica do que sobre a pessoa de Kirk.
Sua morte brutal deve ser compreendida não apenas como um crime hediondo, mas como um episódio emblemático da lógica revolucionária que marca a conduta da esquerda marxista em suas diversas expressões: a erosão da tradição cristã, a desumanização cultural, a relativização da estética, a politização da sexualidade, a diluição do indivíduo em identidades coletivas, a substituição da pessoa pelo tribalismo, a exaltação do criminoso e o empobrecimento deliberado da linguagem.

- O desprezo pela tradição cristã ocidental
A civilização ocidental foi erguida sobre três pilares: Jerusalém, Atenas e Roma. O cristianismo, em particular, moldou a ideia de dignidade intrínseca da pessoa humana, a noção de perdão, a sacralidade da vida e a possibilidade de reconciliação. Não por acaso, a tradição cristã se tornou alvo constante das ideologias revolucionárias.
Roger Scruton observou que “a fé cristã fundou a possibilidade do perdão e da reconciliação, exatamente o que o revolucionário não tolera” (How to Be a Conservative). O revolucionário, para prosperar, precisa de antagonismos irreconciliáveis, precisa da luta eterna entre opressor e oprimido. O cristianismo, ao oferecer uma narrativa de redenção e reconciliação universal, destrói esse esquema simplista.
Joseph Ratzinger foi ainda mais incisivo: “A crise do Ocidente é, em essência, a crise de sua fé” (Introdução ao Cristianismo). Quando a fé cristã é atacada, não se trata apenas de uma disputa teológica, mas de um esforço para retirar da cultura ocidental sua raiz moral mais profunda.
Nesse contexto, não é difícil compreender por que figuras cristãs públicas — como Kirk — incomodam tanto. A cruz incomoda mais do que o martelo — porque ela não oprime, mas liberta.
- A valorização do que desumaniza o ser humano
A antropologia marxista nega a transcendência do indivíduo. O homem é visto não como portador de dignidade intrínseca, mas como produto de relações de produção, classe social ou identidade coletiva.
Aleksandr Soljenítsin, em sua obra monumental Arquipélago Gulag, denunciou com clareza essa redução: “A linha que separa o bem do mal não passa entre classes, mas atravessa o coração de cada homem.” Essa frase simples destrói a lógica revolucionária que divide a sociedade entre inocentes absolutos e culpados históricos.
Kirk, ao enfatizar a centralidade da fé e da responsabilidade individual, representava a antítese dessa visão. Ele lembrava aos jovens que suas escolhas importam, que sua moralidade não é um produto externo, mas uma responsabilidade pessoal. Para uma cultura que deseja dissolver o ser humano em categorias coletivas, tal mensagem é intolerável.
- A disseminação do mau gosto estético
A estética nunca é neutra. A escolha entre beleza e feiura comunica valores. O marxismo cultural entendeu cedo que destruir os símbolos da beleza clássica era parte essencial da revolução. A harmonia, a proporção e o transcendente elevam o espírito; o grotesco, o vulgar e o caótico rebaixam-no.
Roger Scruton, em Beauty, sintetizou isso: “A beleza é um chamado para casa.” O ataque à beleza não é acidente, é projeto. Ao ridicularizar a arte clássica, substituir igrejas por centros de concreto ou encher os espaços públicos de grafismos agressivos, cria-se uma cultura em que o sublime é inacessível e o espírito humano é condicionado a aceitar a mediocridade.
- A exploração da sexualidade
A sexualidade foi transformada em campo de batalha político. Wilhelm Reich, teórico marxista e discípulo de Freud, escreveu em A Revolução Sexual: “A revolução social e a revolução sexual são inseparáveis.” A família, núcleo de transmissão de valores e barreira contra o poder do Estado, precisava ser corroída.
Na prática, isso resultou em uma cultura de hiperexposição, vulgarização e politização do corpo. A intimidade deixou de ser espaço de comunhão e passou a ser arma ideológica. Kirk, ao defender a família tradicional e o valor da castidade, colocava-se em rota de colisão com essa agenda.
- A diluição do indivíduo no coletivo
Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, destacou como os regimes totalitários destruíram a singularidade das pessoas para reduzi-las a massas homogêneas: “O totalitarismo destrói a pessoa singular para que reste apenas a ficção do coletivo.”
Essa lógica reaparece em nossa era sob outras roupagens: a substituição da pessoa pelo “grupo de identidade”. Não importa quem você é, mas a qual grupo pertence. O mérito é irrelevante, a história pessoal é apagada.
Charlie Kirk, ao incentivar jovens a assumirem responsabilidade individual, confrontava exatamente essa visão.
- A busca da afirmação pelo tribalismo
Francis Fukuyama, em Identidade, descreveu a transformação da política ocidental em uma luta por reconhecimento identitário. O tribalismo substitui a busca pelo bem comum.
Para a esquerda marxista, essa dinâmica é conveniente: fragmenta a sociedade em pequenos blocos hostis que dificilmente se unem para preservar valores universais. “Divide et impera” — dividir para governar.
Kirk falava justamente contra essa lógica, defendendo a unidade da nação americana sob valores comuns. Por isso sua presença era percebida como ameaça: ele oferecia uma narrativa integradora em um contexto de fragmentação.
- A exaltação do criminoso
Na narrativa revolucionária, o criminoso não é culpado, mas vítima de um sistema opressor. A figura do delinquente é elevada a símbolo da resistência contra a “ordem burguesa”.
Dostoiévski antecipou esse dilema em Os Irmãos Karamázov: “Se Deus não existe, tudo é permitido.” O colapso da moral transcendente abre espaço para justificar qualquer crime em nome de uma causa.
Nesse contexto, o assassino de Charlie Kirk é tratado quase como um produto inevitável do ambiente social. Enquanto isso, a vítima é rotulada de “extremista” e silenciada mesmo depois de morta.
- O empobrecimento da linguagem
George Orwell, em 1984, cunhou a ideia de “newspeak” — a linguagem artificialmente empobrecida que limita o pensamento. Controlar a linguagem significa controlar o horizonte do possível.
Hoje vemos isso no uso de rótulos vazios como “extremista”, “fascista” ou “negacionista”. Em vez de argumentar, aplica-se uma etiqueta. O debate se torna impossível porque a linguagem já foi seqüestrada.
Kirk foi vítima direta desse processo. Em vida, teve suas posições reduzidas a caricaturas. Após sua morte, foi enquadrado em slogans. A linguagem, nesse caso, não serviu à verdade, mas à desconstrução.
Conclusão
A morte de Charlie Kirk não foi apenas a eliminação física de um jovem líder conservador. Foi também o desfecho simbólico de um processo em que a esquerda marxista, em suas múltiplas faces, busca deslegitimar, desumanizar e silenciar qualquer voz que se levante em defesa da tradição ocidental.
A cruz incomoda mais do que o martelo — porque ela não oprime, mas liberta. E é justamente essa liberdade que o revolucionário não tolera.
Contra a desumanização, precisamos reafirmar a dignidade da pessoa. Contra a destruição da estética, resgatar a beleza. Contra a exploração da sexualidade, defender a família. Contra a diluição do indivíduo, reafirmar a responsabilidade pessoal. Contra o tribalismo, reconstruir a unidade nacional. Contra a exaltação do criminoso, restaurar a justiça. Contra o empobrecimento da linguagem, redescobrir a clareza da verdade.
Se a esquerda insiste em desconstruir, cabe a nós reconstruir. Esse é o verdadeiro legado de Charlie Kirk: a coragem de dizer, em voz clara e serena, que a fé e a liberdade ainda valem a pena ser defendidas.
Referências
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SCRUTON, Roger. How to Be a Conservative. London: Bloomsbury, 2014.
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RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.
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SOLJENÍTSIN, Aleksandr. Arquipélago Gulag. São Paulo: Nova Fronteira, 2011.
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SCRUTON, Roger. Beauty. Oxford: Oxford University Press, 2011.
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REICH, Wilhelm. A Revolução Sexual. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
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ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
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FUKUYAMA, Francis. Identidade: a demanda por dignidade e a política do ressentimento. Rio de Janeiro: Rocco, 2019.
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DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. São Paulo: Editora 34, 2008.
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ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2009.

