Por Eduardo Vasconcellos Lambert


Ao longo da história, o cristianismo sempre teve uma relação profunda com o conhecimento. As primeiras universidades do mundo moderno — como Harvard, Yale, Princeton e outras — foram fundadas por cristãos com o propósito de formar líderes que unissem fé, razão e virtude. No Brasil, temos como exemplo a Universidade Presbiteriana Mackenzie, cuja origem está ligada à missão protestante e ao compromisso com a educação de qualidade sob valores cristãos. No entanto, hoje essa relação encontra-se fragilizada.

As universidades públicas brasileiras, em especial, tornaram-se ambientes percebidos como hostis à fé cristã. Jovens cristãos relatam censura, constrangimentos e perseguições veladas por expressarem sua fé. O cristianismo, antes considerado um alicerce civilizacional, agora é tratado com desdém ou até como ameaça ao pensamento crítico.

A influência de Gramsci e a hegemonia cultural

A teoria da hegemonia cultural, proposta por Antonio Gramsci, comunista italiano do início do século XX, sustentava que a revolução marxista deveria ser cultural antes de ser política ou econômica. Para isso, seria necessário conquistar os centros de formação de pensamento — escolas, universidades, mídia e até igrejas. O objetivo era moldar a mentalidade das massas, minando valores considerados “burgueses”, como a moral judaico-cristã, o conceito de família, o direito romano e a tradição filosófica grega.

Gramsci escreveu em seus Cadernos do Cárcere:

“A superação da sociedade burguesa não se dará apenas pela força. É necessário conquistar a cultura, os intelectuais e os meios de educação.”

E ainda:

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“É preciso destruir as antigas convicções religiosas e morais e substituí-las por novas formas de consciência compatíveis com o socialismo.”

Embora a interpretação da obra de Gramsci varie, é fato que muitos de seus princípios têm sido aplicados por movimentos de esquerda em ambientes acadêmicos, gerando uma narrativa que marginaliza o cristianismo. O discurso cristão é frequentemente rotulado como “retrógrado” ou “fundamentalista”, enquanto outras expressões religiosas ou espirituais são incentivadas sob a justificativa de diversidade cultural.

Fé racional e fundamentada

A fé cristã não é construída no vazio. A arqueologia, a historiografia e a crítica textual apontam para a confiabilidade dos relatos bíblicos. Jesus Cristo é uma das figuras mais documentadas da Antiguidade, reconhecida inclusive por historiadores não cristãos como Flávio Josefo e Tácito. O cristianismo não se baseia apenas em emoção, mas em fundamentos históricos e lógicos. Como disse o apóstolo Pedro:

“Antes, santificai a Cristo como Senhor em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós.” (1 Pedro 3:15)

A universidade deveria ser o ambiente ideal para esse diálogo, mas infelizmente, muitas vezes, essa racionalidade da fé é ignorada ou até ridicularizada.

Intervalo Bíblico, cultos ao ar livre e oração: expressões legítimas de fé

Apesar da hostilidade em certos ambientes acadêmicos, estudantes cristãos têm se mobilizado em iniciativas poderosas e transformadoras. Uma delas é o “Intervalo Bíblico”, momento em que alunos se reúnem, de forma voluntária, durante o intervalo das aulas para leitura das Escrituras, oração e louvor. Estas reuniões, que acontecem em auditórios, salas vazias ou ao ar livre, não interferem no funcionamento da universidade e expressam um direito constitucional: a liberdade religiosa e de reunião.

Os encontros são promovidos pelo CRU UDESC, uma rede internacional criada em 1951 pelo evangelista americano Bill Bright, com o nome original Campus Crusade, e acontecem desde 2016.

Além disso, existem grupos de oração que se encontram semanalmente em praças próximas aos campi, cultos evangelísticos realizados por ministérios universitários, e até retiros espirituais organizados por alunos de diferentes cursos. Esses movimentos têm sido fontes de apoio espiritual, comunhão e fortalecimento da fé, e têm impactado vidas profundamente dentro e fora do ambiente acadêmico.

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mateus 18:20)

Exemplos como o movimento universitário “Aliança Bíblica Universitária” (ABU) mostram que a fé cristã pode, sim, florescer em solo acadêmico. A ABU, presente em diversas universidades brasileiras desde os anos 1950, promove estudos bíblicos, fóruns de debates e ações sociais, tudo a partir de uma cosmovisão cristã.

Mas a UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina) tem se manifestado contrária a essas reuniões, e em dezembro de 2024 proibiu os encontros semanais de oração no campus da unidade, gerando um debate sobre liberdade religiosa e a laicidade do Estado. A proibição ocorreu após uma reunião convocada pela Diretora-Geral do Centro de Artes, Design e Moda (CEART), Daiane Dordete Steckert Jacobs. No encontro online, a diretora argumentou que as atividades do CRU violavam a laicidade do Estado e da universidade, além de ameaçar aplicar sanções disciplinares, denunciar as reuniões ao Ministério Público e interromper as atividades com a presença de seguranças.

Cristofobia velada

Para muitos, a proibição revela uma Cristofobia acadêmica uma vez que que outros grupos religiosos, como o católico GOU e eventos relacionados a religiões afro-brasileiras, como o “Sambas da Macumba” e o “Tambor de Crioula”, ocorreram na universidade sem restrições.

O argumento relativo à Cristofobia é recorrente: grupos ligados à esquerda, professores, políticos e juristas, insistem na ideia que a mensagem cristã não pode estar presente em espaços públicos, especialmente a universidade, por tratar-se de fé e, por isto, objeto de culto privado cuja expressão pública não poderia ser realizada em ambientes diferentes da igreja ou do lar.

No entanto, a fé é uma expressão genuína e íntima do ser humano, inseparável e indissociável da sua própria existência.

A fé como elemento constitutivo da condição humana

Antropologicamente, a fé não é uma anomalia cultural ou uma exceção civilizacional — ela é um traço universal da experiência humana. Desde os primórdios, todos os povos manifestaram formas de transcendência, seja por meio de mitos, rituais, templos ou códigos morais enraizados em realidades invisíveis. A fé, entendida como confiança em uma realidade que transcende a matéria, é tão natural ao ser humano quanto a linguagem ou a arte.

O antropólogo francês André Leroi-Gourhan afirmou que a espiritualidade está entre os primeiros indícios do que se pode chamar de “homem moderno”. A própria noção de sepultamento ritual — presente desde o Paleolítico Superior — já indica uma crença na continuidade da vida ou em alguma instância superior. A fé, portanto, não é uma invenção tardia ou uma imposição social: é um fundamento antropológico que atravessa o tempo e a cultura.

O filósofo Alasdair MacIntyre, em sua obra After Virtue, lembra que a moralidade, a razão e até a ciência florescem melhor em comunidades que têm uma base de fé. A fé fornece não apenas respostas, mas sentido. Como disse o teólogo cristão Paul Tillich, “a fé é a preocupação última do ser humano” — ou seja, aquilo que está no centro de tudo o que somos.

Do ponto de vista cristão, essa sede do transcendente não é acaso evolutivo, mas evidência da Imago Dei — a imagem de Deus no ser humano (Gênesis 1:27). Santo Agostinho resume essa condição em uma frase eterna:

“Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” (Confissões, I.1)

A universidade, portanto, ao negar o espaço para a fé, nega parte essencial do ser humano. Ao ridicularizar a busca por Deus, ela desumaniza o sujeito. Como disse C.S. Lewis, “o cristianismo, se falso, não tem importância alguma. Se verdadeiro, é de importância infinita. A única coisa que não pode ser é moderadamente importante.”

A falácia do “Estado Laico” como ferramenta de censura

Por outra lado, é preciso desmistificar o uso do termo “Estado laico” como uma desculpa para calar manifestações religiosas cristãs. O Brasil, embora oficialmente laico, tem em sua Constituição o reconhecimento da influência de Deus — como se lê no preâmbulo: “sob a proteção de Deus, promulgamos esta Constituição”. A laicidade do Estado não significa neutralidade antirreligiosa, mas sim a garantia de liberdade religiosa para todos.

O artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal de 1988, assegura que:

“é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.”

Ainda o inciso VIII do mesmo artigo afirma:

“ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa, convicção filosófica ou política.”

Usar o argumento de que expressões religiosas em universidades violam o caráter laico do Estado é, na maioria das vezes, um sofisma. O que se observa é uma tentativa de silenciar uma fé específica — o cristianismo — enquanto outras crenças são celebradas.

“Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.” (2 Coríntios 3:17)

A jurisprudência do STF e o ensino religioso confessional

Em 27 de setembro de 2017, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4439, proposta pela Procuradoria-Geral da República, que questionava a constitucionalidade do ensino religioso confessional nas escolas públicas brasileiras. Por maioria de votos (6 a 5), o STF decidiu pela improcedência da ação, permitindo que o ensino religioso nas escolas públicas possa ter natureza confessional, ou seja, vinculado a uma religião específica.

Essa decisão reforça a interpretação de que a laicidade do Estado brasileiro não impede a oferta de ensino religioso confessional nas escolas públicas, desde que a matrícula seja facultativa e respeite a diversidade religiosa, sem promover proselitismo ou discriminação. O STF entendeu que essa modalidade de ensino não viola os princípios constitucionais de liberdade religiosa e de consciência.

Portanto, a jurisprudência do STF confirma que a laicidade do Estado brasileiro é compatível com a presença de manifestações religiosas no ambiente público, incluindo as universidades, desde que respeitados os princípios constitucionais de liberdade e igualdade religiosa.

O chamado do jovem cristão universitário

A universidade é um campo de missão. Não é um lugar para se esconder, mas para brilhar com a luz de Cristo. O jovem cristão deve estar preparado para enfrentar desafios, mas também para testemunhar com mansidão, sabedoria e coragem. Como afirmou o apóstolo Paulo:

“Não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.” (Romanos 1:16)

Se há preconceito, hostilidade ou perseguição, há também graça, força e oportunidade. A fé que resiste é a fé que transforma.

O ambiente acadêmico brasileiro pode ser, sim, um território hostil à fé cristã, mas isso não deve desanimar os que creem. A resposta não é o isolamento, mas o engajamento fiel. Universitários cristãos devem ocupar esse espaço com sabedoria, promovendo a verdade em amor, construindo pontes, não muros, e mostrando que a fé não é inimiga da razão, mas sua aliada mais profunda.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus.” (Mateus 5:10)

Que possamos ver uma geração de estudantes corajosos, comprometidos com a Verdade, que não se conformam com este século, mas o transformam pelo poder do Evangelho de Cristo.

Este artigo é uma contribuição ao Jornal O Farol, voltado à edificação da igreja, defesa da fé cristã e reflexão sobre temas relevantes à luz da Palavra de Deus.

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